Uma espécie de penumbra permeava a energia daquelas noites;
depois de uma tragédia, as almas humanas, coletivas, se recolhiam em medo,
receio e reflexões profundas. Lá fora, portanto, o terreno não se mostrava
firme para aventuras, o salão somente ofereceria a possibilidade de lama e
frio, ao invés de suor e calor, aos corpos sedentos por uma noite de simples
danças. Continuar em casa, assim a configuração da noite ordenava – a cerveja
gelada, herdada no decorrer do desastre, dava o tom por onde
a riqueza da multiplicidade da vida viva se desvelaria. (e que, com certeza, se
desvela nos momentos de superação e reconstrução da tragédia, apesar da dor e
do inconformismo com o destino)Como sempre tendemos a criar aforismos para
falar sobre o vivido, talvez pudéssemos dizer que, depois de se desistir de
qualquer que seja o canal da vida – amor, amizade, profissão, sexo ou paixão -,
xingando-o e maltratando-o, esse mesmo canal se volta com tamanha volúpia para,
tão-somente, nos calar!... e esse processo se repete, incessantemente, como a
história... Nessa noite, simples acontecimentos, novos, simples e descontraídos
(como descrevê-los? Ah, o vivido...) tornaram a calar um sórdido, inocente e
incoerente ser vivente – incrédulo, temporariamente, na magia da vida... A
simplicidade de uma cerveja, a sinceridade de uma amizade, a fascinação da aura
de um lugar, a conectividade social descoberta no emaranhado das novas
tecnologias e a receptividade de distantes mas interessantes pessoas, deram o
tom mágico para a configuração única de uma noite de desvelações a favor de uma
viva viva... Ah, cala-te homem que maltrata alguns dos canais da vida! Ela se
refaz e se mostra em sua plenitude, quando menos se espera. Pessoas, abertas e
sensíveis, surgem – apesar de parecerem sumir – quando menos se espera e se
desconfia... Não importa o canal, a vida ainda é viva!
Editorial
"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]
* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Talvez [31/10/2001]
Talvez
porque tudo fosse difícil. E ela estivesse ali esperando por algo que nunca
soubera se existisse. Se fosse tudo de sua imaginação. De sua infância.
Pequena, começando a esperar o que talvez nunca existisse e por isso devesse se
desligar de tudo que a cercava. Mas como, se era tão pequena? Agora não buscava
culpar os outros; não, não podia. Trabalhava tanto seus conceitos em mente, de
sua vida e de seu futuro, tão inocentemente melancólico. Para ela, pelo menos.
Para sua vida pequeno-burguesa, tão detestável e tão irreversível, desgosto
inexoráravel daqueles instantes. Não só desses em que esperava por não sei o
que, mas todos. Desde quando? Quem sabe de quando era pequena, da infânica. E
pensava tanto em sua vida, o mundo girando em torno de si mesma o tempo todo,
sem perceber, com tudo o que pensava se tornando uma chatice. Muito
auto-referência. Talvez por isso sem amigos; por isso tão só; por isso tão
desestimulada pela vida; por isso cansada consigo mesma. Que esperar por algo
não é mais importante, onde o importante seria saber o que esperar. O quê?
Dividiu-se em duas, contrariando-se. Um ânimo por dentro e a apatia por fora.
Esperando por um estímulo exterior... Isso! Talvez... Já passou! Foi-se.
Acabou-se. Ela esperando...
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Recompensa [15/09/2000]
À
noite acordamos suados e encorajados a viver. Não há mais angústia no ar e a
tarde que se passou não existe em nossas mentes. Extinguiu-se o desespero.
Espero que a melancolia não volte e nos abraçamos calorosamente. Não houve
guerra, não houve disputas por petróleo ou água e nós estamos no século 21.
Poderia ser a virada do século ou do milênio, mas não é dia 1º de janeiro. Nem
1º de abril. Grande mentira foi nossa vida até algum tempo atrás - horas,
minutos ou segundo - o tempo durou o sonho. Este último de transposição e de
mudança. Não sei quanto tempo durou, mas estamos vivos; me abraça!
Apenas
nos damos as costas, pois não sabemos nos amar, por tudo que passamos, por tudo
que vivemos. Até algum tempo atrás éramos insensíveis - e ainda somos. Há tempo
para o auto-conhecimento, para a auto-ajuda, para a auto-destruição, para o
automóvel. Deslizar pela rua tranqüila sem nos preocuparmos com o que
enfrentaremos dali a pouco. Certeza de não furar o pneu ou acabar a gasolina -
auto-estima renovada. Nos gostamos, nos descobrimos, nos revelamos e nos amamos
e eu não sei como lhe dizer isso. Um "Eu te amo" bastaria, mas eu não
sei como entoar a voz, para parecer verdade. Ainda estou traumatizado pela
artificialidade e pela reclusão de medo. Eu gostaria de lhe suspirar, bem perto
do ouvido, virando-me lentamente em tua direção, sem medo e sutilmente, apenas
para lhe sussurrar palavras sutis. Posso conviver com meu ego pacificamente, e
meus desejos podem ser realizados, sim, sem remorsos ou culpas. Vamos, vire-se
e seja feliz!
Aprenderemos
a sermos nós mesmos. Depois da luta há o descanso, e nós temos a recompensa.
Descanso e recompensa - vamos gozar. Do ouro roubado do rei, do direito
extorquido da aristocracia, da liberdade roubada pela escravidão. Sem culpa, com
tesão. Vira-te pequena, faz-se ser minha e eu ser seu. Não há posse. Agora que
encontro a atuo-estima e a segurança quero ser feliz. Nossa é o nosso mundo de
infinitas possibilidades, e enquanto houver energia para poder clamar o novo e
o sincero seremos felizes. Calcularei a possibilidade dos modos de vida que
poderemos levar, com filhos ou sem filhos, dentro ou fora dessa quarto, eu e
você, não mais ninguém, não mais separados, não mais... Por que você conseguiu
sobreviver e eu estou suado. Cansado um pouco. Mas suado pela dureza do combate
ou pela euforia da recompensa?
domingo, 4 de agosto de 2013
Deveria estar ali verificando o funcionamento das máquinas [24/11/2002]
Deveria estar ali verificando o
funcionamento das máquinas. Porém se sentia melhor apenas olhando para o que
dizia aquela pequena plaquinha de certificado de garantia. Uma chapinha cinza
clara, de alumínio, provavelmente, com algumas inscrições em cor preta e outras
gravadas no material. Estavam pregadas com rebite naquela grande máquina verde.
A máquina em que ele deveria estar fuçando e procurando os prováveis defeitos
que seu chefe lhe havia dito que teria. Queria que ele se debruçasse todo por
entre as peças daquela coisa cheia de óleo e graxa, sem a mínima noção do que
estaria ocorrendo de errado. Era ele o único quem consertava os defeitos que
apareciam por toda a fábrica, mas era, com certeza, o que menos sabia sobre
como se concertar. Ia na sorte e na dedução quando ia analisando parte por
parte os problemas que iam lhe aparecendo, sempre demorando muito mais do que o
necessário. Com certeza seu chefe reclamaria do tempo desperdiçado, que era um
funcionário incompetente, que estava desperdiçando o dinheiro precioso da
empresa, e que tomasse cuidado com aquele cobiçado emprego em que se
encontrava. Mas por que não mandasse outro em seu lugar? Não haveria outros ali
cuja única função era consertar máquinas? Se sempre sabia que demorava tanto,
por que o mandava sempre? Havia uma certa cumplicidade não aparente entre ele e
o chefe, que os destinava cada um a dizer sempre a mesma coisa. O chefe
encarregava-o de cuidar da máquina, ele obedecia, porém ficava a enrolar
durante um bom tempo, sem noção do que fazer para solucionar o problema, mesmo
assim resolvia-o de algum jeito e no final recebia a igual bronca do chefe
sobre sua competência. Uma cumplicidade que o mantivera nesse emprego durante
10 anos. Uma cumplicidade que estrapolava o ambiente de trabalho e impregnava o
restante de sua vida. A cumplicidade com a rotina que estabilizou seu modo de
se relacionar com as pessoas e com as situações com que se deparava todos os
dias. Que não o fazia se cansar ou estressar-se com nada.
Aos dezoito anos entrara para
trabalhar naquela grande empresa de fabricação de alumínio. Uma empresa de
grande importância no ramo e que ainda é um grande pólo de geração de empregos
na região. Talvez fosse o único modo de sobrevivência de muitas pessoas que
moravam nas cidades que rodeavam a empresa. Esta numa cidade pequena do
interior, servindo outras cidades um pouco maiores ao seu redor. Salvando, como
dito, vidas da possível miséria assim como cidades da dependência de setores
menos produtivos para seus desenvolvimentos. Porém, somente uma questão de
ponto de vista, sobre quem dependia de quem. Para ele os empregados e as
cidades dependentes dessa grande empresa. O fato importante é que com dezoito
anos resolveu arranjar um emprego em tal. Estava decidido que necessitava de um
trabalho fixo que lhe desse uma estabilidade na vida, pelo menos emocionalmente
ou em termos de vivência, já que o que ganhava não era algo que lhe podia
sustentar plenamente. Na verdade seu pai arranjou-lhe a vaga, bastando
praticamente que a aceitasse, sem necessidades de entrevistas ou persuasão.
Como o pai havia trabalhado há tempos na empresa e como mantinha
relacionamentos com um pessoal de lá, foi fácil colocá-lo lá dentro. Algo
típico para a região, pois era como se fosse um ritual de passagem de um jovem
para a vida adulta empregar-se em qualquer função naquela empresa. E também
típico tornar-se mais importante para os demais ao escalar as várias
hierarquias, pelo menos ao começo de carreira.
Pois então começou a rotina de
acordar cedo, bater o cartão, receber as ordens do chefe, dar uma pausa para o
almoço, voltar ao trabalho e só sair no final da tarde. No início algo até que
bem interessante. Novos compromissos, novos conhecimentos, novas pessoas.
Aguçava-o o espírito estar entrando naquele mundo de vários homens (já que não
havia mulheres em toda fábrica, com raras exceções das secretárias) que estavam
construindo suas vidas ao mesmo tempo. Trabalhadores que se sustentavam e que
se sustentaram há vários anos e sustentando também a economia da região.
Esforços feitos em um único sentido: obter riquezas. E ele estava ali naquele
meio. É claro que sua vida não só estava centrada no emprego, mas ao final do
expediente, à noite, dedicava-se ao estudo na faculdade. Era preciso estar
preparado para ascender profissionalmente e não só pensar no hoje, como diriam
seus pais. Estes deixavam claro que ele estava livre para escolher o caminho
que quisesse seguir na vida, tanto nos estudos como no trabalho. Porém para ele
ficava claro que seu destino começava a se traçar no sentido de dedicar-se
àquela faculdade e à ascenção na hierarquia da empresa. Não achava nada mal aos
dezoito anos e, começando a se integrar ao ambiente do trabalho, decidiu
dedicar-se à ser um bom funcionário, no sentido de obter o prazer que aquilo
tudo poderia lhe proporcionar. Gradativamente foi entendendo como tudo
funcionava e a sentir-se mais confortável no que fazia.
Passado dez anos, o que restou
daquilo tudo? O que tornou-se aquele passado que não parece estar distante? Mas
que parecia estar rompido com o que era agora, como algo pertencente à outra
pessoa, quem sabe. Talvez por ter brigado com o chefe e não ter percebido;
talvez por ter se questionado sobre a eficácia de seu serviço; talvez por ter
pensado em sua vida. Talvez por algo inexplicável, que a rotina não poderia lhe
dar respostas: um Deus? Ou então um distúrbio em sua saúde, já que não
consultava-se em um médico há muito tempo. Ou uma penalização por não ter feito
seu trabalho corretamente. Mas uma penalização por aquela falta de interesse
momentânea ou aquela que se repetiu durante um bom tempo em sua rotina? Não,
sua pena não deveria ser muito grande, achava. Seria muito injusto com o bom
funcionário que era. E brigara com o chefe, não brigara? Ah, que agonia:
brigara! Impossível! Brigara com o chefe e não perecebera! O que havia dito?
Custava a lembrar-se. Já tinha a sensação de que discutira e o nervosismo viera
à flor da pele. Um nervosismo por saber que o chefe era cumplice seu. Um
nervosismo por saber que aquilo tudo estava errado. E que sempre estivera
fazendo esse algo errado. E seu chefe era seu cumplice e que nunca diziam-se
uma palavra sobre o assunto, que tanto lhes era latente. Um desespero por
pensar que aquilo transcendia a esfera daquela relação pessoal. Poderia estar
impregnando a empresa toda, não poderia? Todos teriam essa cumplicidade um com
o outro sobre os erros de cada um? Mas ele não poderia, e estava. Sua rotina,
constatara, não era nada mais do que um esquivar-se do fazer certo as coisas. A
agonia vinha do saber que não era aquele que pretendia ser no começo de
carreira e, pior ainda, que ninguém era integro também. Aflorou a agonia e
desmaiou.
Sonhou com o que fora até os dezoito
anos. Um insight profundo em algo que fora enterrado há tempos. Pensou naquela
vida anterior à sua admissão no emprego atual, que com certeza para ele já
havia desmoronado. Talvez então uma passagem para espiar um pouco mais
profundamente seu passado. Lembrou de seu pai conversando sobre arranjar um
emprego. Algo fixo para sair daquela vida. Que vida? Chegar em casa às 5 da
manhã, trancar-se no quarto, questionar o que as pessoas faziam. Assim tão
abruptamente? Não, acontecia naturalmente. Analizava muito a vida e negava tudo
também. Não confiava em nada ou ninguém, mesmo pensando em acreditar em causas
justas. Causas que poderiam ser negadas à qualquer momento, em detrimento à um
bem maior, que também poderia ser desconstruído à qualquer tempo. E não tinha
amigos. Por quê? Esperava pelo amigo perfeito, que um dia encontraria e
perceberia que tinham a mesma linha de pensamento. Mas qual linha? A de tudo
ser certo e se buscar o perfeito na vida. Um culto à inteligência e à sabedoria
humana, numa oscilação entre o bom e o ótimo. Porém seu amigo nunca chegava e
uma solidão começou a bater-lhe. Uma falta de sentido em seus atos, por não ter
com quem compartilhar seu conhecimento. Não adquirira hábitos como muitos de
seus conhecidos, nem era especialista em algo que outras pessoas também eram.
Acabou ficando somente no plano de suas idéias, pois para concretizá-las
descobriu que precisava de alguém para compartilhá-las. Então quis ser como as
outras pessoas e pensou que estas eram banais: tornou-se banal também. Apenas
conseguia ser banal no meio dos poucos com quem conseguia se relacionar. Só
conseguia falar besteiras e nada mais além disso. Se tocassem em algo que
considerasse um pouco mais inteligente, julgava que as outras pessoas não
entenderiam o que falava e, que quando falava, não lhe era dado atenção.
Sentia-se desprezado e incompreendido. Ao final de tudo não mais confeccionava
seus pensamentos que achava brilhantes nem se relacionava com as pessoas. Então
com 17 anos e desligado do mundo e de sua família. Aos 18 anos seu pai chegou
e, vendo a situação em que se encontrava, resolveu inserí-lo no meio social.
Empregou-lhe na empresa mais tradicional da região e deu-lhe um
"Start" na vida. Só funcionava com o incentivo de alguma força
exterior à sua. Alguém acordou-o do desmaio.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
e tudo tem um começo e um fim [13/01/2001]
e tudo tem um começo e um fim. e talvez um
meio, que diferencie o todo. e tudo começou. e tudo acabou. ontem. hoje.
sempre. a existência humana começa e, inexoravelmente, acabará um dia. maldito
tempo; maldita existência. a particular e a coletiva. e luta-se para ter uma
vida, um meio que justifique esse começo e esse fim. o tédio é eminente. é mais
fácil desistir. é a vida pelo o que ela é, que não nos deixa ser mais mediocres.
então tenta-se viver de um lado, ou matar-se, Liz, do outro. extremos. absurdos.
mesmo sabendo que morre-se, apega-se à vida à qualquer custo. mesmo sabendo que
a vida diferencia a existência dos tolos e dos menos tolos, apega-se à morte à
qualquer custo. à qualquer custo, Liz. o tempo existe inexoravelmente. infelizmente?
passado ou futuro? escolhe-se, de forma inútil, a melhor forma de se passar o
tempo. rápido ou lentamente? inútil. o tempo é relativo! o passado é relativo!
ah, Liz, e a saudade?
ser jovem. ser menos humano. menos
racional. menos responsável (?). mais calor. mais vida. não se é tão humano,
pois humanos não vivem. jovens vivem. do amor. ah, do amor! do amor humanista,
de interação entre seres humanos. olhares, movimentos, beijos, abraços,
carinhos, toques, toques, toques, sexo. sexo. juventude. juventude é sexo. junção
de corpos, ligeiros, em busca do prazer, do amor. que amor? talvez apenas
prazer, prazer e prazer. eterno. apenas rápidos momentos. o prazer se esvai.
então se vive mais e mais. ser jovem é viver intensamente. em busca do prazer.
e do amor? ah, se é do amor de duas almas, esqueça! se é do amor que cresce à
dois, esqueça! na juventude? esqueça! esqueça o amor. na juventude não há
espaço para palavras. o jovem que tem palavras não é jovem. não há espaço para
o prazer. mas não é velho. não é humano. quando se ama quando se é jovem, o
mundo acaba. o amor é cruel, caros senhores - do velho amor, meloso e redentor.
quem conhece esse tal de amor, sabe que ele é cruel, que esfacela com tudo. o
amor, caros senhores, é uma idéia velha.
então você passa. eu ali sentado. você e
um vestido que disperta a sensualidade de um adolescente qualquer. eu, um
adolescente qualquer. tímido, deslocado. sentado, sou atraído pela sua
presença. passa rápido, como devaneios adolescentes. tem uma sensualidade no
andar. no ser. uma delicada sensualidade. de quem quer provocar a vida. de quem
não tem o que perder nessa vida. a vida em sua forma sensível de nos dizer que
ainda existimos. ainda vivemos. e você passa. eu, nutrindo esperanças em longos
devaneios. sobre o quê? quem sabe nós... então, no outro dia, você perto de
mim. aqui? aqui. você a procurar livros nessa velha biblioteca. eu novamente
sentado. delicadamente a vida passa. ainda existo! a mesma sensualidade. os mesmos
devaneios meus. quem sabe nós... então resolvo procurar por uns livros. estantes
e mais estantes. promessas de felicidade? fantasias e mais fantasias. talvez
olhar para os livros menos reais e tentar ser menos fantasioso. imaginar menos
e viver mais. ah, a vida de novo... então você ali. perguntando-me o que leio,
de que livros gosto, indicações que acharia legal ela ler. eu não existo! nada
disso existe! você pergunta o meu nome e, tolamente, eu penso que a vida é tudo
isso...
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Do que as garotas gostam [29/05/2002]
“Do que as garotas gostam”: um daqueles filmes hollywoodinos: primeiras impressões após alguns minutos de filme. Um publicitário bem sucedido em sua carreira profissional, levando as garotas que quer para a cama. O típico machão que não reconhece a sensibilidade diferenciada das mulheres. Somente a reconhece em vista de seus interesses não afetivos, mas sexuais: muito mais amor-próprio do que amor de si. Porém os sinais para sua vida não são favoráveis, o que se verifica com o divórcio, seu desacerto com a ex-mulher. Tudo parece configurar-se para que uma boa lição de vida venha lhe mostrar o quanto sua vida corre pela “estrada errada” sob a superfície aparentemente bem constituída. Um típico enredo hollywoodiano, herdando as tradições protestantes da sociedade americana de formação do século XVII e XVIII: o espírito protestante e a ética do capitalismo? No filme a ética do capitalismo é totalmente salva: sem questionamentos nem discussões sobre a ordem vigente – esta já se solidificou sob a vida das pessoas. Quem há de questionar o que se vê de tão perfeito e exato na solidez que o capitalismo pode nos trazer, com seus belíssimos arranha-céus, escritórios maravilhosos, casas elegantemente arquitetadas, festas avassaladoramente planejadas? O que não dá certo é culpa das pessoas: homens e mulheres não se entendem por culpa dos homens, a falta de insensibilidade destes. Apenas o acaso e a intervenção divina podem salvar o homem liberal deste começo de século. Estamos começando e o melhor é retomar o homem encantado, aquele que acreditava nos deuses, mitos, no sobrenatural e mantinha sua vida em pleno equilíbrio: a presença espiritual e inexplicável há de nos salvar dessa vida pretensamente secular e racional – fundada em preceitos verdadeiros relativizáveis, é claro! Assim também é que os filmes não podem mais ser encarados como meras fantasias da alma humana e como mera imagens da realidade. Pois agora são concretizáveis e é preciso que o telespectador saiba realizar a tarefa que poucos entenderão; é preciso dar espaço ao inconsciente, ao incogniscível, ao não-racional e apenas aceitar aquela imagem subliminar que nos é possível captar pela paixão. É preciso deixar-se tomar pelo irracional e pela sensibilidade diferenciada que todas as mulheres possuem: é preciso saber o que o outro tem a nos dizer através dessa sensibilidade inata que todos carregamos.
Talvez todas as mulheres tenham algo de comum. Talvez todas sejam tão cuidadosas com aquilo que fazem, sejam tão responsáveis com o que pensam e produzem, sejam às vezes tão indecisas e tão duras consigo mesmas. Assim pode ser que muitas preocupam-se incessantemente com o cabelo, com a roupa, com a beleza, como um deslocamento do objeto de responsabilidade. E assim talvez sejam todas as mulheres, passíveis de serem entendidas por essas qualidades inerentes da alma feminina que lhes é dado: aliás todos tivemos mães um dia e sabemos como elas são. Mas é assim que nenhuma delas é afetada por situações vividas no dia-a-dia, nas notícias de jornal, nas compras no supermercado, no trânsito para levar as crianças a escola, na conversa comas vizinhas e com o marido cansado à tarde. Não são afetadas, não, pois veja como é a força feminina: seu espaço é garantido no mercado-de-trabalho, elas são fortes, têm coragem, podem com os homens – foi somente eles darem uma bobeada e lá estavam elas. “Do que as mulheres gostam” está aí para nos comprovar, para nos dizer que as mulheres tem seu emprego garantido e que somente os homens não se deram conta disso. Elas têm emprego, têm casa, têm carro, têm segurança, têm alimentação, têm educação: só não têm a afetividade dos homens. Somente por isso não lhes é permitido o sucesso completo – talvez somente pela graça do espírito do capitalismo os homens possam converter-se. E assim Maria da Esquina também poderá ser feliz ao dirigir-se a fila para procura do tão prometido emprego (procura dificultada por homens insensíveis, é claro); também Maria das Dores poderá ficar segura ao entregar seu filho na escola do bairro, já que a segurança é garantida por homens mais compreensíveis e a criminalidade tenha diminuído pela maior complacência dos bandidos; será o fim do martírio de Maria da Esperança, que não mais esperará angustiada a volta de seu marido – este sensível – da peregrinação pela busca por comida entre muitos homens insensíveis desse mundo... Mundo se sabe lá qual, visto que a globalização já tomou todo o particular, e ter noção de onde se passa esse filme nada serviria: a insensibilidade é universal.
Impressões incrédulas podem tomar o expectador durante todo o filme – e muito mais além de seu tempo, com a possibilidade duma crônica ser escrita -, mas esses são realmente os insensíveis. A ironia da produção pode estar muito além daquilo que exibe intencionamente na tela, daquilo que inconseqüentemente produz na cabeça dos telespectadores: interage entre esses dois processos, para ser a própria negação não intencional a partir do que produziu de reações. É renascer pela própria negação daquele que não a produziu, e por isso mesmo não tem o direito de transforma-la direta e indiretamente de sua fala: como se um desejo mesquinho infinito de vinganção surgisse na base da crítica. Na sua negação do contexto, o filme mostra a dura realidade que pode – e é certo de – estar afetando a própria vida do telespectador crítica da produção. A incomunicabilidade entre os seres humanos talvez seja a própria incapacidade da natureza humana em sua relação com o social. Não nos é possível por qualquer meio concebível e inconcebível chegarmos a verdade da psicanálise: Freud não conseguiu, genticistas não conseguiram, o social não conseguiu. Em vista dessa incapacidade de nos entendermos em nossa verdade, surge então o social, que impõe-nos uma verdade entre as diversas que criamos: um consenso entre milhares tem que ser imposto para que o mínimo de vivência possamos ter. Mas não é o que os críticos mais exaltados e perseguidores querem admitir, pois a verdade tem de estar em algum dos lados. Aqui a questão é bem ou mal, e a menor identificação da problemática do filme com a realidade é rejeitada, nem mesmo com a realidade projetada de perfeição. É assim que a insensibilidade cessa seu ciclo, e até mesmo os anti-anti-insesibilização são atacados pela falta de espaço ao acesso à verdade e sensibilidade do outro, renunciando a si mesmos. Pois é isso o que a lição final nos traz: renunciar a nós mesmo, até a melhor intenção que tivermos – (seja ela entrar em contato direto com a sensibilidade do outro ou não).
Assim talvez possamos começar nossas relações de um outro ponto de vista: não tão pelo radical, não tão pela aceitação de tudo. Mas daí talvez se pense que uma volta a um passado mítico de uma época de não-degeneração tenha de ser trazida à tona, sendo somente possível nos regenerarmos quando da completa extinção dessa nossa vida impura. É então que se chegaria a um completo estado de loucura onde acabar com o outro seria a solução e a negação do primeiro objetivo estaria feita... Talvez não haja completa pureza e completa perfeição: o melhor caminho é o do meio termo – começando por mim, começando por você, mudando sem esperar pelo não imaginável, agora!
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
J [27/04/2001]
Juliana vivia com Marcos há três anos. Dormiam juntos todos os dias mas nunca transavam: não eram namorados. Apenas amigos de infância que resolveram entrar na rotina da vida em conjunto. Nada os prende entre si. Quando vêem estão almoçando juntos, conversando sobre mesmos assuntos ou indo de carona um com o outro para o trabalho. Se a vida fosse gloriosa e tudo pudesse desmoronar em um só instante! Juliana comentava com Marcos sua visão pós-moderna de mundo após um café aglutinado com caranguejos à sua volta. Formulava teorias que a levariam a Marte em um orgasmo super-ultra-mega-estimulado por um micro-vibrador que acabara de inventar. Ou melhor, propor o funcionamento interno de tal instrumento já inventado, mas não aperfeiçoado até certo ponto. Com as compras à sua volta e o molho de tomate seguro em sua mão. Uma gosminha de nariz no seu dedo; talvez de alguma limpadinha que dera não querendo que Marcos percebesse; ou de alguém que no supermercado deixara tal herança à Juliana, mesmo não sabendo quem ela seria. Tudo para simplesmente o molho despedaçar em suas mãos, já que o lacre da embalagem não estava bem lacrado e aquela merda da seladora (a máquina ou a pessoa?) não tinha considerações com a sua pessoa. Má fé das fábricas de molho de tomate, pois tanto faz o molho escorrer na tua mão ou na tua macarronada, já que você vai usar o molho, comprou-o é teu, deu dinheiro para o dono da empresa, então o tomate moído e embalado tão pessimamente é teu, enfia onde tu quiser, que se dane. Marcos pede para ela deixar o molho escorrer livremente por entre as mãos de Juliana. Não faz mal um pouco de molho entre os dedos, argumenta Marcos, já que você já está putrefando nessa vida e toda tua matéria vai virar polpa de tomate quando os vermes começarem a te roer por dentro. Pede para segurar de volta a caixa de tomate que ela havia jogado no lixo. Pede para pegar de volta no lixo, naquele lixo da cozinha, com toda aquelas cascas de ovo, cascas de alface carcomidas por minhocas, bolo estragado por vermes, seja lá o que for que ela colocou e que acha nojento, contanto que pegue e fique segurando no meio das mãos esperando a morte passar e pegar os dois para irem direto à qualquer lugar que não seja mais ali com aquela pessoa insuportável que não quer segurar a porra da caixa de tomate, triturados ao extremo e tão voláteis quanto suas vidas que podem ir para qualquer lugar além dali à todo o momento em que se descuidam dos pormenores dessa necessidade de subsistir entre caroços de azeitona na mesa e papel higiênico semi-usado na pia do banheiro. Enfia a cabeça e começa a gritar pelo molho de tomate. Talvez quisesse a caixa do molho do tomate, mas talvez quisesse restituir o molho primeiro e ser uma freak completa, como também fugir para o vazio da lata de lixo usando como desculpa o fato de não encontrar a caixinha amarela (mas como? estava com os olhos fechados e assim não poderia enxergar nada, como uma criança que fecha os olhos diante do perigo ou do medo de algo, na esperança de que passe logo o momento e sejamos todos felizes, para não perder o abraço do papai e da mamãe, principalmente o da mamãe, não sei se do papai, já que mamãe faz um doce delicioso, ou então abraçarmo-nos todos de uma vez em uma super gigante, ou sem roda, apenas aquela confusão de abraços sem sincronismo nenhum, mas eu te amo, eu te amo, eu te amo, todos vocês, eu sei que é um pouco vergonhoso mas eu sou sempre assim, desculpe, desculpe, mas eu amo..)... então? ah... deixe-me ver.... sei lá... sei lá... aqui talvez... era isso?... não... 1/2 hora e ela ali ainda meu deus piedoso dos carcomidos por transgênicos! talvez eu deva chamá-la ou então empurrá-la mais afundo nessa depressão concreta que, na minha opinião, todo mundo deveria ter, só para parar com esse academecismo besta de fundo de quintal de apartamento, que nunca existe... sei lá, vomitar também faria muito bem, já que estamos todos enauseados... blá, blá, blá..,...................seeufodessecomovocêtodanoiteegozassenolençolquemsabeosanjoscaluniadosporminhasvozesdopassadonãoseriamrestituidosaoladodedeuseentãoeuseriaamadoporvocê? Deixe-me em paz! É isso que eu quero! Nada me prende a nada já que eu não sei bem o que dizer! Creeps hipotéticos de beleza pré-regulada por fatores biologicamente modificaos em trangenicidas que enegrecem meus dentes! Percebe-os mais escuros do que ontem, com aquele buraco provocado por seu triste conto idiota de um realismo racionalista pró-verdades acadêmicas me fez, ao descontrolar meu carro e bater naquela porra de quarto? Senhores, o que lhes peço é juuuuuuuuuuuízo! Com seu casco Juliana fica de 4 e começa a lamber o chão. Marcos chega ao ouvido de Juliana e diz: seu cú é redondo e tua tragédia é expressão de meus olhos ensangüentados pela navalha que corta o bico dos teus seios... suavemente enfia a lingua em seu ouvido e começa a fazer movimentos circulares com tal. Vai rápido e rápido, em eterno ciclo, até as 6 da manhã daquele sábado nublado. Suas vidas mudaram e ele saiu do lado dela com a barba corta e o dente escarniçado por bactérias antropófagas de gosmo-química pré-nuclear ultra sangue sugas de gela bisbilhoteira, só porque o sangue de seus olhos cicatrizou e agora é cego. Meu deus, meu deus, seu cú de geléia redonda de mármore sintético... eleécego!
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