Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Desalentos no Nada [10/11/2000 - Trilogia Egotrips Eleitoraris (semi-crônicas semi-ficcionais)]

                Diferenças entre ganhadores e perdedores. Qual a diferença ao se acordar todo os dias, para se ser ganhador ou perdedor? Lorotas... Não há o que ganhar e nem o que perder. Não há nada e tudo cada vez mais faz menos sentido. Antíteses da vida, do universo, ou da MINHA vida? Sinceramente, não tenho respostas. E hoje não estou bom nem mal. Agora quando acordo, não vislumbro uma vida nova ou alguma revelação, surpreendente nos sonhos. Sonhos não tive; apenas reflexões banais do inconsciente, horas antes apagadas. Sequer as lembro e as quero de volta. Distraio meu pensamento procurando evitar a obviedade do cotidiano. A cama está boa, é verdade, porém tento dar o tom de provocações às palavras. Se há trégua durante uma existência, esta ocorre ao se dormir. Tenho a sorte de não ter pesadelos (ou o azar, com a mesmice dos sonhos?) e contradigo-me: alieno-me da realidade que tanto preso. Talvez hoje há algo que ser feito. Mas é claro que há! Talvez não devesse ser tão duro comigo e acho que posso esperar um pouco mais...
                Hoje temos eleições. Vamos ser bonzinhos, lembraremos que existem as leis e que há obrigações a serem cumpridas, por isso iremos pela calçada, olharemos para os dois lados antes de atravessar a rua, e iremos direto à escola votar. Se possível, não se vai beber nem dormir até tarde, e assim não esqueça de ter separado o título de eleitor. É claro, lembrou-se dele só agora, mas tudo bem! Também lembrou-se que é obrigatório votar, e que dentro da normalidade não há como fazer birra: então esqueça a maravilhosa viagem de domingo e faça esse sacrifício de teclar e esperar o triiiiiin... É tudo culpa do governo! Aqueles corruptos lá de cima que nunca trabalham (exceto de terça à quinta) e que agora destroem seu domingo! Mas pelo menos eles investiram seu dinheiro em algo que funciona: urna eletrônica. Pois é, já sabe como votar naquele troço? Não vá fazer feio, mas com aquela bitolação dos comerciais que interrompem sua novela, não há como não errar. E não sei como tem um pessoal que consegue embananar-se com tanta simplicidade! O pior é que tem gente que nem sabe escrever... Quanta contradição, não? Tecnologia high-tech e povo anarfa: mistura estupidamente hipócrita!
                Televisão, decadência. Agora, para se dar um ar interativo a televisão, o melhor é inventar diálogos com o pessoal do outro lado da tela. Nada de esquizofrenia; assim talvez a televisão possa incitar o espírito crítico. Mas não vale a pena, o melhor é... cadê o controle... achei... desligá-la! Pronto! Agora devo preparar o café, e entregar-me à labuta de expulsar essa fome matinal... Burgueses, operários, playboys, caipiras, favelados, criminosos, todo mundo vota! E é no mínimo interessante ficar observando essa gama de pessoas sendo entrevistada na televisão. Talvez eu devesse ser repórter. Um repórter sarcástico com um humor negro e ao mesmo tempo sutil. Gostaria de ter entrevistado esse tio que estava na televisão e tê-lo feito algumas dessas perguntas que me vieram a mente. Porém há a imparcialidade que os repórteres devem respeitar, mas tudo bem. Apenas gostaria de vê-lo contrariar-se ao perceber o absurdo que tornou-se votar. Por amor à pátria, pela democracia, por seus semelhantes, etc... Sofismas, os deles e os meus. Talvez eu seja um tanto demasiado cético por não ter vivido no período militar, ditadura, censura, tortura - atadura na boca deles: desculpas para justificar a beleza dessa balbúrdia. E esse café que não encontro! Fico pensando nos problemas do mundo, distraio-me, e nem sequer consigo encontrar um mísero pó-de-café... Mas não estou dormindo, e não há como escapar: penso. Deixo de concluir meus pensamentos, esqueço a angústia que eles me provocam.
                Sabe, tudo é marketing. Olhe para este pó de café, para a embalagem. Com certeza na empresa que manufatura estes grãos de café (infelizmente não fazem mais café como antigamente) há um departamento que só cuida dos meios de divulgação desse produto. Propaganda, embalagem, pesquisas de opinião e outras mil técnicas inventadas por estrategistas da área. E o resultado do trabalho desse departamento está aqui nessa embalagem ou nesse produto que comprei. O mais incrível é que o resultado não é só essa embalagem, com seu colorido (apesar de ter um tom marrom), mas também o fato de eu ter comprado o pó de café da marca X. Veja só: não sou um simples consumidor de café, mas o alvo de vários estudos de pessoas que querem ganhar mais grana! Então talvez até o preço que eu pago no café tenha um valor a mais para suprir os gastos com marketing; ou, o mais provável, é que o quanto a empresa consegue lucrar a mais com o aumento das vendas, com o marketing, valha o que eles investem... E se pensar que isto é apenas um pó de café, cuja função principal, na minha vida, é alimentar-me! Não dá para pensar que eu apenas compro pó de café. É algo mais do que isso. Chega a ser complicado, foge à minha compreensão, e me dá uma certa náusea... Saber que não é apenas um pó de café mas... um monstro! Argh!
                O melhor é tomar o café e pensar que é só café. Que o leite é só leite e que ninguém faz mais nada com ele. Não sofre nenhum processo artificializante nem maltratam as vacas que os dão. Não é nenhum plástico que se bebe, e sim leite! Aquele mesmo leite que eu bebia quando era pequeno e me deliciava. É? É! Ok, devo controlar-me! Apenas pão, leite, café e margarina... Nas suas essências mais puras! Essências? De baunilha, de corantes, de acidualantes, de anti-coagulantes, de artificializantes, de óbitos, de marketing, de hormônios, de neurônios. Não, desses não! O que menos tem aqui são neurônios. Como haverá neurônios nisso que se come, se neurônios fazem pensar. E quando eu penso comendo, eu não como. Dá-me náusea, asco, desprezo.... Eu me levanto e saio de casa para ver se ainda existe algo de natural no mundo. Pego meu casaco e fecho a porta de casa. Não faz frio, porém nada pode-se afirmar sobre a natureza hoje em dia. Talvez esteja nevando, com essa camada de papéis cobrindo minha calçada. Talvez tenham inventado um modo de fazer com que se chova santinhos. Faz-se chover em lugares estratégicos de campanha do candidato, e ainda por cima põem a culpa na natureza. Quanta palhaçada: um desequilíbrio natural no planeta que faz com que caiam, em determinadas épocas do ano, papéis com propaganda política na rua. Vamos, votem nesses homens de poder e política. Devo trancar-me em casa - tenho asco do que como -; devo andar pela rua - tenho asco do que vejo. A vida é assim e blá, blá, blá... Partidos políticos são assim e blá, blá, blá... Ideologias são assim e blá, blá, blá... Hipocrisia é assim mas não é blá, blá, blá! É ruim para a sociedade e para uma democracia saudável! O cerne do problema social é a hipocrisia humana! Não avançamos por causa da hipocrisia social! Tudo pelo social e sem hipocrisia! Demagogia barata, falso moralismo, niilistas são vocês!!! Devo acalmar-me: pragmatismo e reacionarismo: péssimas idéias. (Quem cala consente?)
                Angustio-me com essas eleições. Não pela fraude ou pela corrupção; o problema é mais em baixo. Observe a política de campanha dos candidatos: postes entupidos com cartazes, santinhos pelas ruas ou carros de som em volumes insuportáveis. Isso superficialmente, somente para quem se sensibiliza com o que olha. Porém, como eu disse, o problema é mais embaixo. Andando pelas ruas, não é difícil esquecer que o país vive uma guerra política, literalmente. Só quando chego em casa é que sinto intensamente os acontecimentos políticos. Divirto-me, à noite, sentado no sofá, assistindo a participação dos candidatos e partidos no horário político. Temos ali um enredo digno de novela mexicana: um candidato ataca o outro; então o outro consegue provas de não sei coisa que tal candidato fez há tanto; daí o acusado tenta defender-se, mas acusa, quem o acusou, a maioria do tempo; o eleitor fica boiando em meio a tantas acusações, não sabendo se há embasamento para tais. Assim, se não se sensibilizar com a encenação de algum dos candidatos, acaba ficando indeciso sobre qual a melhor política. Ou diverte-se como eu. Diz-se que o povo, os mais pobres, os sem-cultura-educação-e-tudo-mais, gostam da baixaria e dos programas de pouca qualidade na televisão. Enfim, a mediocridade televisiva. Porém, veja esse horário político que assisto à noite em casa: baixaria feita por indivíduos das camadas mais altas da sociedade. Salva as exceções (poucas), todos os políticos que encontramos ali são provenientes do extrato social que ostenta a riqueza, ou seja, a burguesia privilegiada. Não quero parecer um revolucionário, mas todos ali tem um bom ou alto padrão de vida, que os inseriu na política, produzindo um lixo político enorme na televisão. Quase não assisto televisão, mas gosto de dar uma olhada nesse horário político, e então diz-se que o povão aprecia a baderna na programação? Será?
                Acho que talvez eu devesse voltar para casa e pegar meu título para votar. Não agüento mais ficar pensando nos males eleitorais e se eu não votar logo acabo fazendo alguma besteira. O melhor é votar e relaxar um pouco; talvez eu seja uma pessoa encucada demais... Mas veja só: e o papel dos meios-de-comunicação e do dinheiro ligados à política? Digo os meios-de-comunicação porém falo dos modos de se divulgar a candidatura política, já que a televisão, o rádio, os impressos são os meios mais utilizados hoje em dia. Quem tem grana pode fazer política, e talvez eu já tenha pensado sobre isso há pouco. Mas quem tem grana também tem mais recursos para divulgar sua campanha e, quem sabe, até usar melhor as mídias modernas. Se na época de Getúlio Vargas houvesse campanhas como hoje, talvez ele não ganhasse; naquela época a mídia era outra. Então por que não pensar que há uma forte influência da mídia de massa no processo eleitoral? Grandes meios de informação à serviço de interesses políticos e assim participando, indiretamente, na influência do eleitorado... Exagerado, um pouco, e nada de teoria de conspiração. Apenas suposições sutis como capas de revistas que não me interessam: estão ali mas não as sinto. E tudo isso distancia-se tanto da realidade individual, de comunidade. Eu, com minha existência individual, chegando em casa... Onde estão minhas chaves? Ah... Achei!... Não sinto a política sendo parte minha. Deveria ser, mas não é e ao mesmo tempo é. Deveria ser natural, porem não é... E deixe-me pegar meu título para ir logo votar! Onde está você, titulo?
                Agora que peguei o tão poderoso titulo, deixe-me acabar logo com essa angústia! O tempo segue seu ritmo inexoravelmente; apenas o homem com sua complexidade o deforma. Então o que tem que ser agora será agora, e somos muito apressados ou esperamos muito. Não acredito no destino, e se votarei nessa hora ou nas próximas, é tão somente um problema meu. As eleições irão acontecer inevitavelmente, e em relação ao seu tempo, não sou nada, mas em relação ao resultado tenho uma força maior, igual a todos os que votam. Assim, a questão primordial não é votar agora ou depois, e sim o que se pensa de tudo. O processo eleitoral não é de agora e nem a democracia é de momento. Não obedecemos à um sistema definido, porém somos o sistema em constante mutação. E nada é só bom ou só ruim. Aprecio muito a democracia e me delicio com a liberdade individual, principalmente a de expressão. Nada melhor do que ter a sensação de ser dono de mim mesmo, e sentir que, eu, posso movimentar minhas pernas por essas ruas. Também posso decidir, com esse documento que tenho em mãos, em quem quero votar. O que não gosto é o demasiado antagonismo que há nas coisas. Nostalgia, mediocridade, falso moralismo, inércia e manipulação não me agradam. Ainda que eu suba as escadas da escola em que voto, decidido a eleger tal candidato, ainda pensarei nos males que envolvem o processo eleitoral. Muitos partidos, sem propostas ideológicas definidas, unindo-se para fazer loby contra outros partidos. Pessoas má instruídas e que deixam-se levar pela falsidade sentimental dos candidatos, ou então a subornação do eleitorado. Ou a nostalgia política em tempos de eleição, que distanciam-se da noção de comunidade, sendo esquecida, tal nostalgia, durante o período de governo. Não gosto de nada disso e também não gosto de apatia. Por isso procuro ser alguém que se interesse pela política. Meu modo de agir é ter um senso crítico da situação e procurar questionar o que há de errado, ao meu ver, que beneficie a todos. Ninguém é perfeito, e talvez eu seja (um pouco) cético demais. E talvez eu devesse por em prática o que eu esteja pensando. Enfim, acredito no homem e, além dele, só ele mesmo pode se salvar.
                Subo as escadas da escola onde voto. O templo da educação dá lugar à democracia. Paredes sujas e a educação vai mal; a democracia também. Dirijo-me à zona eleitoral onde voto e penso em várias coisas, o mesmo que pensar em nada. Penso nos erros da política e no candidato em que irei votar. Há algum tempo já sei em que votarei e, mesmo não encontrando minhas convicções em suas propostas, procuro conhecê-las para poder cobrá-las, futuramente. A única solução que vejo nesse momento é a  fiscalização dos atos do político eleito. E, mesmo eu pensando que há tanta coisa errada com esse nosso modo de política, não estou colaborando com o sistema. Esse sistema errôneo que considero, assim me tornando hipócrita. Pelo contrário, estou participando da democracia. O voto nulo poderia ser uma saída, um modo de protesto. Porém não tenho minhas convicções para pô-lo em prática. Ali está a sala de aula em que voto. Entro e deparo-me com o seleiro das disputas políticas: urnas, para onde tudo converge. Mostro meu título, assino os papéis e, apesar de um pouco de nervosismo (não há como não sentir), vou em direção à urna. Digito os números e, finalmente, triiimmm!!! Acabou! Sem alívios e nem sensação de dever cumprido. Mas pareço ter exercido um pouco do direito que me cabe. Enfim, aí está o tudo, o nada, o caos ou a ordem: debaixo do meu nariz. E só um trecho de Paul Valéry que aprecio muito e que se encaixa ao que tenho pensado ultimamente:

"Agradeço essa injustiça, essa afronta que me despertou, e cuja sensação viva lançou-me para longe de sua causa ridícula, dando-me também tamanha força e tamanho gosto por meu pensamento que, por fim, meus trabalhos tiveram o benefício de minha cólera; a busca de minhas leis tirou proveito do incidente."

Perdido no espaço [10/11/2000 - Trilogia Egotrips Eleitoraris (semi-crônicas semi-ficcionais)]

"O verme perdoa o arado que o corta." - William Blake - Provérbios do Inferno

                Uma boa noite de sono. Nada que revitalize mais. Gostaria de ter lembrado dos sonhos que tive, mas nada é perfeito. E seria uma noite perfeita ao ter me lembrado do que pensei durante essas 10 horas de sono. Não sei se poderia dizer que pensei algo; nem que alguém tenha pensado comigo; nunca parei para pensar se penso enquanto durmo, mas já penso, e é o suficiente. Ontem a noite foi boa, o sono foi bom e, como disse, tudo isso me revitaliza. Não apenas a noite de sonho, como também ter conversado com Liz. Pouco havia que se perder quando resolvi sair, e então encontro Liz: um pouco receosa, eu também. Troca de olhares, me aproximo, um pouco de conversa, até chegarmos a ser os humanos que somos, com bebida também, claro! Às vezes é preciso estar entediado para se divertir profundamente nesta vida... Então chateia-se, aborrece-se, desilude-se, com tudo, com todos, com você... Por o quê? Pela vida não lhe dar opções... Busca-se pessoas, divertimento, agitação, badalação, o feeling do envolvimento, paixão, o nada-importa. Ganha-se o cansaço e a cama tediosa de sempre torna-se um dos dois melhores lugares para se estar: nela ou envolto nos braços dela, da garota de há pouco. Por enquanto nada me convence a levantar, tenho a sensação de ter o tempo em minhas mãos. Tento lembrar-me dos sonhos que tive. Talvez tenham sido com ela, um idealização romântica de nós dois, juntos e impossíveis, se o que nos une só o é por uma noite apenas. A manhã, a tarde, o dia, todo hoje, são meus, sou onipotente, carrego a felicidade temporal de um domingo livre sem compromisso. Talvez tenha de me levantar para tomar o café e deixo os pensamentos incompletos. Mas tenho poder sobre o tempo, pelo menos hoje. Expurgo o tédio, direto à uma xícara de café...
                Infelizmente a noite passa e não sou mais o que eu era da última noite. Lavando o rosto, livro-me completamente dos últimos resquícios de ontem. Não gosto de dizer que vivo do passado. Acho muito cruel ter tal perspectiva, se é ao futuro que vamos. Pelo menos é o que pretendo, sem saber muito ao certo como. Porém momentos como esses são bons de serem lembrados, o que me dá uma grande dose de energia para pensar no que hei de fazer hoje. O que sou agora é refletido no espelho; nos pensamentos a nostalgia do passado. Hoje talvez eu deva viver novamente o ontem, ou então recriá-lo. Mas o que é rotina senão isso? Então a encontrarei, para alguns poucos beijos, algo que suponho valer à pena. Ela vale sim, não que eu pense em algo mais duradouro. Os lábios valem, com certeza... O aparelho de barba, ããhh, onde está? E ela, onde está? Nem ao menos sei onde você pode estar, querida... Ah, cacete, como não me lembrei disso antes? He, he, vi... hoje é dia de eleição, seu... seu... alienado! Vai, barbeia-te logo!
                Só eu mesmo para esquecer que hoje é dia de votação. E agora, o que faço, hein? Bem, posso votar até às 5. Agora são quase 10 horas. Deixe-me ver... O leite está ali, mas o café não está pronto... Então talvez eu deva almoçar, descanso um pouco, voto e me encontro com a Liz. É, mas antes de almoçar eu dou uma ligada prá ela. Pelo menos o número do telefone dela eu tenho; acho que tenho, se não o perdi. Café fraco, não fazem mais como antigamente, nem têm cafezais como os de antigamente. E por pensar em se perder, talvez eu esteja perdendo algo importante. Pois é, como se vota sem o número do candidato? Suponho que eu os tenha separado, e ontem mesmo eu recordo de tê-los anotados em um papel. Foi uma escolha difícil com toda certeza. Dá um pouco de medo pensar que se vai votar em uma urna eletrônica, pela primeira vez, que se pode errar, coisa e tal. Mas prá prefeito e vereador não tem tanta importância, porém se fosse para presidente o peso era maior. Daí que eu me desanimei um pouco para escolher não o melhor, mas o menos corrupto dentre todos esses candidatos sujos que aparecem por aí. Acreditar no que quando se vê só roubalheira? Acabo o café e o pão estava um pouco duro, porém me alegro ao lembrar onde havia guardado os números dos candidatos. Agora é só achar o número da Liz.
                Liguei para a Liz e é difícil acreditar que ela tenha me dito que não está afim de sair hoje. Dor-de-cabeça, mas todo mundo tem dor-de-cabeça. Que nada, o que será? Ela custou a me reconhecer no telefone, e se não fosse eu insistir no meu nome e sobre ontem à noite ela não teria me falado sobre sua dor-de-cabeça. Talvez não tenha dormido bem essa noite, ou nem tenha dormido e por isso não me reconheceu. Talvez as bebidas. Umas faca de dois gumes: não se lembra de mim por que bebeu ou ficou comigo por que bebeu. Quem sou eu para me iludir? Um babaca, com certeza. Esqueça-a e é o melhor que há de ser feito. Assim não se sente usado nem nada. Mas a verdade seja dita: eu fui usado. Isso é o que se consegue quando se diz que não há amor verdadeiro, e que se acredita apenas em liberdade, amizade e respeito em um relacionamento. O que se perde são as perspectivas de um domingo à tarde, mas tudo bem...
                Agora só me resta votar, andar um pouco por aí, esperar o tempo passar e senti-lo escapar do controle. Não se é mais onipotente. E o domingo passa, as pessoas passam e ninguém vem ao meu encontro. De mão dadas, votamos, desabafo um pouco e trocamos uns beijos apenas. É muito? Ninguém se importa, todo mundo é egoísta e muito sério. Vem, vamos ter um pouco de liberdade e mexer com nossa libido! Eu estou carente e só sei que devo votar... Enquanto isso as pessoas teimam em ser sérias, distribuindo santinhos pelas ruas, agitando bandeiras de seus candidatos; enquanto o divertimento chama, a verdade é que não são o que serão a daqui algumas horas: extravasarão. Apoiei-me no passado, tão perto e tão frágil, o que não deveria ter feito, não quis ter feito, mas enfrento a queda, só por causa de você. Ter esperanças do passado é a maior burrice que se faz, pelo menos o é nesse momento. Você me deixou e agora escorrego num domingo vazio direto à uma segunda-feira maçante. Só me resta votar e sentar no sofá para assistir, argh!, televisão...
                Tomara que a fila não esteja grande. Não quero ter a sensação de estar perdendo meu tempo mais do que agora. Tenho que pensar que estou aproveitando meu tempo ao máximo. Meu título de eleitor está aqui, mas meu papelzinho, minha cola... Bem, vejamos se não está nesse bolso. Nem nesse... Ah, cacete... E agora? Só essa que me faltava... Calma, não entremos em pânico que pelo menos o nome do candidato eu devo saber. Suponho que eu tenha deixado os papéis em cima do criado-mudo quando telefonava para Liz. Sempre você, hein Liz? Talvez até houvesse tempo de voltar para casa e pegar os papéis, mas sei lá... talvez não valha à pena o esforço. Lá na escola deve ter a relação dos candidatos com os nomes e os números... Espero... Deixe-me andar mais depressa para a agonia não bater.
                Vejamos... aqui está! Bem, o nome é parecido com o que eu havia visto no jornal. É, era sim. Não sei se era apelido ou coisa parecida, mas aqui está com o nome inteiro dele. Sim, é esse daqui sim! Agora para prefeito... Deve ser naquela outra folha... Aqui está! Ah, com três candidatos não é tão difícil de se escolher. Não era esse, nem esse, então só pode ser esse. O nome é bem parecido, acho que o partido é o mesmo e olhe aqui no chão... O santinho dele... As propostas parecem ser boas, portanto é o menos pior, mesmo. He, he, vamos acabar logo com essa palhaçada pois quem está com dor-de-cabeça sou eu! Seção 315, no final do corredor, sem fila, vazia, esperando por mim. Olá, tudo bem? Assina aqui? Opa, obrigado! Agora é ali? Tudo bem... Os papéis: não os perdi! Não é o telefone da Liz mas está confirmado na telinha. CONFIRMA - trimmmm!!! Pronto! Tchau, até mais! Ah, dever cumprido! Sensação boa, compensa o desafeto da Liz... Ao menos algo para animar a inexorável segunda...

Perdido no tempo [10/11/2000 - Trilogia Egotrips Eleitoraris (semi-crônicas semi-ficcionais)]

"A loucura do aprofundar-se e depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança a vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo."
Hilda Hilst - Com meus olhos de cão

                Bem, não há mais nada o que se fazer. Não foi uma boa noite de sono, nem sonhos tive. Preocupações, talvez, mas como disse, o que pode ser feito? Nada me convida a sair dessa cama; nem pretendo, nem quero. Ficarei o resto da vida nessa cama. Pelo menos hoje, não há dia pior do que hoje. Desculpem-me, mas não cumprimentarei meus vizinhos, não olharei nos olhos de meus colegas, quando eu os cruzar na rua, só a cabeça baixa. Sem exageros! Apenas quero ficar deitado um pouco mais nessa cama. O que há de se perder quando não se dorme durante uma noite e já é de manhã? Retraio-me pensando nos temores em que hei de enfrentar, encarando-os de mau gosto, sem gosto, cheio de angústia. Temores meus, tão meus que ninguém os pressente do lado de fora dessa casa, ou mesmo desse quarto. Apenas em meu cérebro, e isso é muito peculiar, muito inusitado; um tanto tolo, grandiosamente bobo. Preocupações bobas que esqueço-me do que realmente me preocupo: mesquinharia. Se assim o fossem, se assim o fossem...
                Tudo bem, levanto-me da cama e vou direto ao café. Assim talvez acordo, ou melhor, talvez eu tenha mais disposição. Para viver? Não penso em meus problemas enquanto não fizer o café, certo? Condições que imponho a mim mesmo, e o jogo fica cada vez mais truncado. Sou complicado, porém antes do café o banheiro. Só uma passada rápida: enojo-me do banheiro quando acordo... Não quero perceber que sou mais ridículo do que sou, sentado nessa privada! Mas não pense, não pense... Lave o rosto, acorde, não pense no que não quer pensar, acorde mais e encoraje-se mais, só mais um pouco e, vá preparar o café! Pele bonita, um pouco ressecada, mas o café me chama. Deixe Narciso para lá... Café, cafeteira, café, filtro, café, pó, café, tomada, café, café, café... Não pense, não pense... Pense, vamos, pense! Terror psicológico - masoquismo mental.
                Tenho que votar, e aí está a merda! Grande mer... Não é grande, mas é... E é para mim! O que eu fiz até agora para merecer toda essa merda que eu estou me sentindo? Não fiz nada, e essa é a merda. Deixa a merda para lá, pois nada disso tem a ver com merda, mas com... responsabilidade, talvez. E talvez eu esteja sendo duro comigo mesmo, mas não há como não ser, ou sentir-se culpado. Pode ser masoquismo, pensar que não tenho responsabilidade com algo que não é cobrado, ou que nem mesmo tem importância. É troxa, vão dizer os outros. E o que eu tenho feito para mudar as coisas? Nada além de aceitar que me chamem de troxa. Sou mais do que isso e devo fazer mais do que isso. Está ficando muito complicado essas coisas, que nem pensamentos mais sei se são. A verdade (se há um verdade para tudo) é que estou decepcionado com minha parte cidadão nessas eleições. A parte que deveria participar e, sabendo da responsabilidade de se participar, não tem forças para agir. Saber da responsabilidade é não estar na condição de alienado, porém é mais: é ter noção do real (a realidade é diferente do real) para contrair um compromisso, quase que involuntário, com o presente. Ao final tudo é menos complicado do que isso. É algo natural e que me angustia. Pois não se sabe como se deve agir, proceder ou simplesmente começar a se ser responsável. E em tratando-se de política, as coisas complicam. Há ideologia (mesmo se não combinar com política), interesse, moral, disputa, persuasão...
                Há quem ache política, eleição, voto, democracia partes de um todo muito sujo. Que não valha um tostão envolver-se nesses assuntos. Porém são valores que estão, ou deveriam estar, muito mais próximos de nós mesmos. Deveriam ser tão nossos que, ao discutirmos política, intimamente, nos sentiríamos violados tratando abertamente algo pessoal. Sem exageros, novamente, mas nada disso é artificial. Ninguém deve sentir-se de tal e tal jeito quando discute política. Apenas é algo que me é natural, ou me veio naturalmente. Então angustio-me nessas horas, quando reflito esperando o café passar pelo filtro de papel, ou como agora, tomando-o apesar de sua fraqueza (não torram mais café como antigamente!). Não angustio-me à toa, nem sou masoquista como tenho dito. O que acho é que tenho feito pouco para mim mesmo. É o engajamento gratuito, descompromissado de recompensas, fruto da pura reflexão. São as experiências que a vida traz e que qualquer um, inexoravelmente está vedado a desfrutar, sejam elas boas ou ruins. E somos seres sociais, tanto eu como meu vizinho ou colega. Até agora a única solução que o homem encontrou para conseguir sobreviver em meio à ferocidade natural, foi a integração entre seus semelhantes. Quem há de mudar o que se chama sociedade?
                Mesmo isolado da sociedade ainda dependemos dela. Não é possível tornar-se um ser solitário, execrando o meio de vida social, sem se desvincular da sociedade. Para se ser solitário é preciso se ter como referencial as outras pessoas. Talvez esteja tudo muito teorizado, porém é o que tenho comprovado na prática e nos diversos e longos momentos de reflexão que proporciono a minha pacata vida. Reflito mais do que vivo, e essa xícara cuja alça seguro neste momento, tem mais importância prática do que eu. É isso que me angustia! Não isso, isso e isso, tão fáceis de serem descritos. A situação inerte é meu maior medo, o que mais me intimida. Nessas eleições o que fiz eu de prático? Tudo bem, li nos jornais as propostas que os candidatos tinham e tirei minhas conclusões. Mas o que fiz eu lá fora, nas ruas, por exemplo? Nada além de assistir o horário político sentado, confortavelmente, em meu sofá. Enquanto isso milhares de pessoas participavam ativamente no meio político, seja ele qual for. Mesmo me considerando mais sábio do que muitos, tendo minhas confianças políticas, não me deixando alienar pelo tédio político, eu posso creditar-me como um verdadeiro cidadão político. Estou tão perto das verdades e tão longe das convicções que me fazem lutar por tais verdades. Isso me tortura, eu mesmo me torturo, fico a segurar o queixo, no desalento, inerte, sem saber o que fazer, tendo que tirar a mesa após um café pavoroso... Tanto tédio, tanta inércia!
                O que há de ser feito é justamente fazer. Isso mesmo. Por enquanto só posso realizar meu simples e raso direito de cidadão de um sistema democrático: votar. Se não lutei ou não participei ativamente, este não é o momento apropriado para agir. O processo democrático não é um processo imediatista. Por isso certas pessoas deveriam dar mais valor ao ato de se pensar e se refletir. E talvez isso eu tenha feito bem: pensar. Se hoje se tem medo, é um medo incerto que faz se desesperar; em meio ao desespero não se pensa, e o desejo de se ter a certeza de um medo único, é que faz sistemas totalitários vigorarem. Hoje alguém poderia dizer que uma ditadura nos seria melhor, em meio a tanta incerteza em que vivemos. Mas sem querer soar idealista, a democracia é um sistema justo que se constrói na luta do dia-a-dia, em que cada indivíduo tem sua parcela de participação. Então, mãos à obra, exerce um dever, para alguns, mas um direito, para mim. Trocarei de roupa, pegarei meu título de eleitor, olharei no espelho e direi que sou bonito (e não sou), sairei de casa e votarei. Teclas, teclas e triiimmm!!! Confiarei no meu poder de voto e sentirei que sou feliz, agora e daqui a pouco. Estes são momentos que de desilusão que vêm e passam, mas são só momentos... E o que é a vida senão um grande momento, mas bem grande mesmo? E todas as coisas nela, na vida, têm a importância única de se existir, inclusive política, ideologia e eleições. Assim, devo viver cada momento intensamente (carpe diem?) de engajamento e consciência, tão únicos do viver... Na verdade a vida é muito mais simples do que isso tudo!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Lembranças de uma noite de penumbras e vislumbres inesperados [09/04/2000]

Uma espécie de penumbra permeava a energia daquelas noites; depois de uma tragédia, as almas humanas, coletivas, se recolhiam em medo, receio e reflexões profundas. Lá fora, portanto, o terreno não se mostrava firme para aventuras, o salão somente ofereceria a possibilidade de lama e frio, ao invés de suor e calor, aos corpos sedentos por uma noite de simples danças. Continuar em casa, assim a configuração da noite ordenava – a cerveja gelada,  herdada  no decorrer do desastre, dava o tom por onde a riqueza da multiplicidade da vida viva se desvelaria. (e que, com certeza, se desvela nos momentos de superação e reconstrução da tragédia, apesar da dor e do inconformismo com o destino)Como sempre tendemos a criar aforismos para falar sobre o vivido, talvez pudéssemos dizer que, depois de se desistir de qualquer que seja o canal da vida – amor, amizade, profissão, sexo ou paixão -, xingando-o e maltratando-o, esse mesmo canal se volta com tamanha volúpia para, tão-somente, nos calar!... e esse processo se repete, incessantemente, como a história... Nessa noite, simples acontecimentos, novos, simples e descontraídos (como descrevê-los? Ah, o vivido...) tornaram a calar um sórdido, inocente e incoerente ser vivente – incrédulo, temporariamente, na magia da vida... A simplicidade de uma cerveja, a sinceridade de uma amizade, a fascinação da aura de um lugar, a conectividade social descoberta no emaranhado das novas tecnologias e a receptividade de distantes mas interessantes pessoas, deram o tom mágico para a configuração única de uma noite de desvelações a favor de uma viva viva... Ah, cala-te homem que maltrata alguns dos canais da vida! Ela se refaz e se mostra em sua plenitude, quando menos se espera. Pessoas, abertas e sensíveis, surgem – apesar de parecerem sumir – quando menos se espera e se desconfia... Não importa o canal, a vida ainda é viva!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Talvez [31/10/2001]

Talvez porque tudo fosse difícil. E ela estivesse ali esperando por algo que nunca soubera se existisse. Se fosse tudo de sua imaginação. De sua infância. Pequena, começando a esperar o que talvez nunca existisse e por isso devesse se desligar de tudo que a cercava. Mas como, se era tão pequena? Agora não buscava culpar os outros; não, não podia. Trabalhava tanto seus conceitos em mente, de sua vida e de seu futuro, tão inocentemente melancólico. Para ela, pelo menos. Para sua vida pequeno-burguesa, tão detestável e tão irreversível, desgosto inexoráravel daqueles instantes. Não só desses em que esperava por não sei o que, mas todos. Desde quando? Quem sabe de quando era pequena, da infânica. E pensava tanto em sua vida, o mundo girando em torno de si mesma o tempo todo, sem perceber, com tudo o que pensava se tornando uma chatice. Muito auto-referência. Talvez por isso sem amigos; por isso tão só; por isso tão desestimulada pela vida; por isso cansada consigo mesma. Que esperar por algo não é mais importante, onde o importante seria saber o que esperar. O quê? Dividiu-se em duas, contrariando-se. Um ânimo por dentro e a apatia por fora. Esperando por um estímulo exterior... Isso! Talvez... Já passou! Foi-se. Acabou-se. Ela esperando...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Recompensa [15/09/2000]

            À noite acordamos suados e encorajados a viver. Não há mais angústia no ar e a tarde que se passou não existe em nossas mentes. Extinguiu-se o desespero. Espero que a melancolia não volte e nos abraçamos calorosamente. Não houve guerra, não houve disputas por petróleo ou água e nós estamos no século 21. Poderia ser a virada do século ou do milênio, mas não é dia 1º de janeiro. Nem 1º de abril. Grande mentira foi nossa vida até algum tempo atrás - horas, minutos ou segundo - o tempo durou o sonho. Este último de transposição e de mudança. Não sei quanto tempo durou, mas estamos vivos; me abraça!
            Apenas nos damos as costas, pois não sabemos nos amar, por tudo que passamos, por tudo que vivemos. Até algum tempo atrás éramos insensíveis - e ainda somos. Há tempo para o auto-conhecimento, para a auto-ajuda, para a auto-destruição, para o automóvel. Deslizar pela rua tranqüila sem nos preocuparmos com o que enfrentaremos dali a pouco. Certeza de não furar o pneu ou acabar a gasolina - auto-estima renovada. Nos gostamos, nos descobrimos, nos revelamos e nos amamos e eu não sei como lhe dizer isso. Um "Eu te amo" bastaria, mas eu não sei como entoar a voz, para parecer verdade. Ainda estou traumatizado pela artificialidade e pela reclusão de medo. Eu gostaria de lhe suspirar, bem perto do ouvido, virando-me lentamente em tua direção, sem medo e sutilmente, apenas para lhe sussurrar palavras sutis. Posso conviver com meu ego pacificamente, e meus desejos podem ser realizados, sim, sem remorsos ou culpas. Vamos, vire-se e seja feliz!
            Aprenderemos a sermos nós mesmos. Depois da luta há o descanso, e nós temos a recompensa. Descanso e recompensa - vamos gozar. Do ouro roubado do rei, do direito extorquido da aristocracia, da liberdade roubada pela escravidão. Sem culpa, com tesão. Vira-te pequena, faz-se ser minha e eu ser seu. Não há posse. Agora que encontro a atuo-estima e a segurança quero ser feliz. Nossa é o nosso mundo de infinitas possibilidades, e enquanto houver energia para poder clamar o novo e o sincero seremos felizes. Calcularei a possibilidade dos modos de vida que poderemos levar, com filhos ou sem filhos, dentro ou fora dessa quarto, eu e você, não mais ninguém, não mais separados, não mais... Por que você conseguiu sobreviver e eu estou suado. Cansado um pouco. Mas suado pela dureza do combate ou pela euforia da recompensa?

domingo, 4 de agosto de 2013

Deveria estar ali verificando o funcionamento das máquinas [24/11/2002]

            Deveria estar ali verificando o funcionamento das máquinas. Porém se sentia melhor apenas olhando para o que dizia aquela pequena plaquinha de certificado de garantia. Uma chapinha cinza clara, de alumínio, provavelmente, com algumas inscrições em cor preta e outras gravadas no material. Estavam pregadas com rebite naquela grande máquina verde. A máquina em que ele deveria estar fuçando e procurando os prováveis defeitos que seu chefe lhe havia dito que teria. Queria que ele se debruçasse todo por entre as peças daquela coisa cheia de óleo e graxa, sem a mínima noção do que estaria ocorrendo de errado. Era ele o único quem consertava os defeitos que apareciam por toda a fábrica, mas era, com certeza, o que menos sabia sobre como se concertar. Ia na sorte e na dedução quando ia analisando parte por parte os problemas que iam lhe aparecendo, sempre demorando muito mais do que o necessário. Com certeza seu chefe reclamaria do tempo desperdiçado, que era um funcionário incompetente, que estava desperdiçando o dinheiro precioso da empresa, e que tomasse cuidado com aquele cobiçado emprego em que se encontrava. Mas por que não mandasse outro em seu lugar? Não haveria outros ali cuja única função era consertar máquinas? Se sempre sabia que demorava tanto, por que o mandava sempre? Havia uma certa cumplicidade não aparente entre ele e o chefe, que os destinava cada um a dizer sempre a mesma coisa. O chefe encarregava-o de cuidar da máquina, ele obedecia, porém ficava a enrolar durante um bom tempo, sem noção do que fazer para solucionar o problema, mesmo assim resolvia-o de algum jeito e no final recebia a igual bronca do chefe sobre sua competência. Uma cumplicidade que o mantivera nesse emprego durante 10 anos. Uma cumplicidade que estrapolava o ambiente de trabalho e impregnava o restante de sua vida. A cumplicidade com a rotina que estabilizou seu modo de se relacionar com as pessoas e com as situações com que se deparava todos os dias. Que não o fazia se cansar ou estressar-se com nada.
            Aos dezoito anos entrara para trabalhar naquela grande empresa de fabricação de alumínio. Uma empresa de grande importância no ramo e que ainda é um grande pólo de geração de empregos na região. Talvez fosse o único modo de sobrevivência de muitas pessoas que moravam nas cidades que rodeavam a empresa. Esta numa cidade pequena do interior, servindo outras cidades um pouco maiores ao seu redor. Salvando, como dito, vidas da possível miséria assim como cidades da dependência de setores menos produtivos para seus desenvolvimentos. Porém, somente uma questão de ponto de vista, sobre quem dependia de quem. Para ele os empregados e as cidades dependentes dessa grande empresa. O fato importante é que com dezoito anos resolveu arranjar um emprego em tal. Estava decidido que necessitava de um trabalho fixo que lhe desse uma estabilidade na vida, pelo menos emocionalmente ou em termos de vivência, já que o que ganhava não era algo que lhe podia sustentar plenamente. Na verdade seu pai arranjou-lhe a vaga, bastando praticamente que a aceitasse, sem necessidades de entrevistas ou persuasão. Como o pai havia trabalhado há tempos na empresa e como mantinha relacionamentos com um pessoal de lá, foi fácil colocá-lo lá dentro. Algo típico para a região, pois era como se fosse um ritual de passagem de um jovem para a vida adulta empregar-se em qualquer função naquela empresa. E também típico tornar-se mais importante para os demais ao escalar as várias hierarquias, pelo menos ao começo de carreira.
            Pois então começou a rotina de acordar cedo, bater o cartão, receber as ordens do chefe, dar uma pausa para o almoço, voltar ao trabalho e só sair no final da tarde. No início algo até que bem interessante. Novos compromissos, novos conhecimentos, novas pessoas. Aguçava-o o espírito estar entrando naquele mundo de vários homens (já que não havia mulheres em toda fábrica, com raras exceções das secretárias) que estavam construindo suas vidas ao mesmo tempo. Trabalhadores que se sustentavam e que se sustentaram há vários anos e sustentando também a economia da região. Esforços feitos em um único sentido: obter riquezas. E ele estava ali naquele meio. É claro que sua vida não só estava centrada no emprego, mas ao final do expediente, à noite, dedicava-se ao estudo na faculdade. Era preciso estar preparado para ascender profissionalmente e não só pensar no hoje, como diriam seus pais. Estes deixavam claro que ele estava livre para escolher o caminho que quisesse seguir na vida, tanto nos estudos como no trabalho. Porém para ele ficava claro que seu destino começava a se traçar no sentido de dedicar-se àquela faculdade e à ascenção na hierarquia da empresa. Não achava nada mal aos dezoito anos e, começando a se integrar ao ambiente do trabalho, decidiu dedicar-se à ser um bom funcionário, no sentido de obter o prazer que aquilo tudo poderia lhe proporcionar. Gradativamente foi entendendo como tudo funcionava e a sentir-se mais confortável no que fazia.
            Passado dez anos, o que restou daquilo tudo? O que tornou-se aquele passado que não parece estar distante? Mas que parecia estar rompido com o que era agora, como algo pertencente à outra pessoa, quem sabe. Talvez por ter brigado com o chefe e não ter percebido; talvez por ter se questionado sobre a eficácia de seu serviço; talvez por ter pensado em sua vida. Talvez por algo inexplicável, que a rotina não poderia lhe dar respostas: um Deus? Ou então um distúrbio em sua saúde, já que não consultava-se em um médico há muito tempo. Ou uma penalização por não ter feito seu trabalho corretamente. Mas uma penalização por aquela falta de interesse momentânea ou aquela que se repetiu durante um bom tempo em sua rotina? Não, sua pena não deveria ser muito grande, achava. Seria muito injusto com o bom funcionário que era. E brigara com o chefe, não brigara? Ah, que agonia: brigara! Impossível! Brigara com o chefe e não perecebera! O que havia dito? Custava a lembrar-se. Já tinha a sensação de que discutira e o nervosismo viera à flor da pele. Um nervosismo por saber que o chefe era cumplice seu. Um nervosismo por saber que aquilo tudo estava errado. E que sempre estivera fazendo esse algo errado. E seu chefe era seu cumplice e que nunca diziam-se uma palavra sobre o assunto, que tanto lhes era latente. Um desespero por pensar que aquilo transcendia a esfera daquela relação pessoal. Poderia estar impregnando a empresa toda, não poderia? Todos teriam essa cumplicidade um com o outro sobre os erros de cada um? Mas ele não poderia, e estava. Sua rotina, constatara, não era nada mais do que um esquivar-se do fazer certo as coisas. A agonia vinha do saber que não era aquele que pretendia ser no começo de carreira e, pior ainda, que ninguém era integro também. Aflorou a agonia e desmaiou.
            Sonhou com o que fora até os dezoito anos. Um insight profundo em algo que fora enterrado há tempos. Pensou naquela vida anterior à sua admissão no emprego atual, que com certeza para ele já havia desmoronado. Talvez então uma passagem para espiar um pouco mais profundamente seu passado. Lembrou de seu pai conversando sobre arranjar um emprego. Algo fixo para sair daquela vida. Que vida? Chegar em casa às 5 da manhã, trancar-se no quarto, questionar o que as pessoas faziam. Assim tão abruptamente? Não, acontecia naturalmente. Analizava muito a vida e negava tudo também. Não confiava em nada ou ninguém, mesmo pensando em acreditar em causas justas. Causas que poderiam ser negadas à qualquer momento, em detrimento à um bem maior, que também poderia ser desconstruído à qualquer tempo. E não tinha amigos. Por quê? Esperava pelo amigo perfeito, que um dia encontraria e perceberia que tinham a mesma linha de pensamento. Mas qual linha? A de tudo ser certo e se buscar o perfeito na vida. Um culto à inteligência e à sabedoria humana, numa oscilação entre o bom e o ótimo. Porém seu amigo nunca chegava e uma solidão começou a bater-lhe. Uma falta de sentido em seus atos, por não ter com quem compartilhar seu conhecimento. Não adquirira hábitos como muitos de seus conhecidos, nem era especialista em algo que outras pessoas também eram. Acabou ficando somente no plano de suas idéias, pois para concretizá-las descobriu que precisava de alguém para compartilhá-las. Então quis ser como as outras pessoas e pensou que estas eram banais: tornou-se banal também. Apenas conseguia ser banal no meio dos poucos com quem conseguia se relacionar. Só conseguia falar besteiras e nada mais além disso. Se tocassem em algo que considerasse um pouco mais inteligente, julgava que as outras pessoas não entenderiam o que falava e, que quando falava, não lhe era dado atenção. Sentia-se desprezado e incompreendido. Ao final de tudo não mais confeccionava seus pensamentos que achava brilhantes nem se relacionava com as pessoas. Então com 17 anos e desligado do mundo e de sua família. Aos 18 anos seu pai chegou e, vendo a situação em que se encontrava, resolveu inserí-lo no meio social. Empregou-lhe na empresa mais tradicional da região e deu-lhe um "Start" na vida. Só funcionava com o incentivo de alguma força exterior à sua. Alguém acordou-o do desmaio.