Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

e tudo tem um começo e um fim [13/01/2001]


 e tudo tem um começo e um fim. e talvez um meio, que diferencie o todo. e tudo começou. e tudo acabou. ontem. hoje. sempre. a existência humana começa e, inexoravelmente, acabará um dia. maldito tempo; maldita existência. a particular e a coletiva. e luta-se para ter uma vida, um meio que justifique esse começo e esse fim. o tédio é eminente. é mais fácil desistir. é a vida pelo o que ela é, que não nos deixa ser mais mediocres. então tenta-se viver de um lado, ou matar-se, Liz, do outro. extremos. absurdos. mesmo sabendo que morre-se, apega-se à vida à qualquer custo. mesmo sabendo que a vida diferencia a existência dos tolos e dos menos tolos, apega-se à morte à qualquer custo. à qualquer custo, Liz. o tempo existe inexoravelmente. infelizmente? passado ou futuro? escolhe-se, de forma inútil, a melhor forma de se passar o tempo. rápido ou lentamente? inútil. o tempo é relativo! o passado é relativo! ah, Liz, e a saudade?

      ser jovem. ser menos humano. menos racional. menos responsável (?). mais calor. mais vida. não se é tão humano, pois humanos não vivem. jovens vivem. do amor. ah, do amor! do amor humanista, de interação entre seres humanos. olhares, movimentos, beijos, abraços, carinhos, toques, toques, toques, sexo. sexo. juventude. juventude é sexo. junção de corpos, ligeiros, em busca do prazer, do amor. que amor? talvez apenas prazer, prazer e prazer. eterno. apenas rápidos momentos. o prazer se esvai. então se vive mais e mais. ser jovem é viver intensamente. em busca do prazer. e do amor? ah, se é do amor de duas almas, esqueça! se é do amor que cresce à dois, esqueça! na juventude? esqueça! esqueça o amor. na juventude não há espaço para palavras. o jovem que tem palavras não é jovem. não há espaço para o prazer. mas não é velho. não é humano. quando se ama quando se é jovem, o mundo acaba. o amor é cruel, caros senhores - do velho amor, meloso e redentor. quem conhece esse tal de amor, sabe que ele é cruel, que esfacela com tudo. o amor, caros senhores, é uma idéia velha.

      então você passa. eu ali sentado. você e um vestido que disperta a sensualidade de um adolescente qualquer. eu, um adolescente qualquer. tímido, deslocado. sentado, sou atraído pela sua presença. passa rápido, como devaneios adolescentes. tem uma sensualidade no andar. no ser. uma delicada sensualidade. de quem quer provocar a vida. de quem não tem o que perder nessa vida. a vida em sua forma sensível de nos dizer que ainda existimos. ainda vivemos. e você passa. eu, nutrindo esperanças em longos devaneios. sobre o quê? quem sabe nós... então, no outro dia, você perto de mim. aqui? aqui. você a procurar livros nessa velha biblioteca. eu novamente sentado. delicadamente a vida passa. ainda existo! a mesma sensualidade. os mesmos devaneios meus. quem sabe nós... então resolvo procurar por uns livros. estantes e mais estantes. promessas de felicidade? fantasias e mais fantasias. talvez olhar para os livros menos reais e tentar ser menos fantasioso. imaginar menos e viver mais. ah, a vida de novo... então você ali. perguntando-me o que leio, de que livros gosto, indicações que acharia legal ela ler. eu não existo! nada disso existe! você pergunta o meu nome e, tolamente, eu penso que a vida é tudo isso...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Do que as garotas gostam [29/05/2002]

“Do que as garotas gostam”: um daqueles filmes hollywoodinos: primeiras impressões após alguns minutos de filme. Um publicitário bem sucedido em sua carreira profissional, levando as garotas que quer para a cama. O típico machão que não reconhece a sensibilidade diferenciada das mulheres. Somente a reconhece em vista de seus interesses não afetivos, mas sexuais: muito mais amor-próprio do que amor de si. Porém os sinais para sua vida não são favoráveis, o que se verifica com o divórcio, seu desacerto com a ex-mulher. Tudo parece configurar-se para que uma boa lição de vida venha lhe mostrar o quanto sua vida corre pela “estrada errada” sob a superfície aparentemente bem constituída. Um típico enredo hollywoodiano, herdando as tradições protestantes da sociedade americana de formação do século XVII e XVIII: o espírito protestante e a ética do capitalismo? No filme a ética do capitalismo é totalmente salva: sem questionamentos nem discussões sobre a ordem vigente – esta já se solidificou sob a vida das pessoas. Quem há de questionar o que se vê de tão perfeito e exato na solidez que o capitalismo pode nos trazer, com seus belíssimos arranha-céus, escritórios maravilhosos, casas elegantemente arquitetadas, festas avassaladoramente planejadas? O que não dá certo é culpa das pessoas: homens e mulheres não se entendem por culpa dos homens, a falta de insensibilidade destes. Apenas o acaso e a intervenção divina podem salvar o homem liberal deste começo de século. Estamos começando e o melhor é retomar o homem encantado, aquele que acreditava nos deuses, mitos, no sobrenatural e mantinha sua vida em pleno equilíbrio: a presença espiritual e inexplicável há de nos salvar dessa vida pretensamente secular e racional – fundada em preceitos verdadeiros relativizáveis, é claro! Assim também é que os filmes não podem mais ser encarados como meras fantasias da alma humana e como mera imagens da realidade. Pois agora são concretizáveis e é preciso que o telespectador saiba realizar a tarefa que poucos entenderão; é preciso dar espaço ao inconsciente, ao incogniscível, ao não-racional e apenas aceitar aquela imagem subliminar que nos é possível captar pela paixão. É preciso deixar-se tomar pelo irracional e pela sensibilidade diferenciada que todas as mulheres possuem: é preciso saber o que o outro tem a nos dizer através dessa sensibilidade inata que todos carregamos.
         Talvez todas as mulheres tenham algo de comum. Talvez todas sejam tão cuidadosas com aquilo que fazem, sejam tão responsáveis com o que pensam e produzem, sejam às vezes tão indecisas e tão duras consigo mesmas. Assim pode ser que muitas preocupam-se incessantemente com o cabelo, com a roupa, com a beleza, como um deslocamento do objeto de responsabilidade. E assim talvez sejam todas as mulheres, passíveis de serem entendidas por essas qualidades inerentes da alma feminina que lhes é dado: aliás todos tivemos mães um dia e sabemos como elas são. Mas é assim que nenhuma delas é afetada por situações vividas no dia-a-dia, nas notícias de jornal, nas compras no supermercado, no trânsito para levar as crianças a escola, na conversa comas vizinhas e com o marido cansado à tarde. Não são afetadas, não, pois veja como é a força feminina: seu espaço é garantido no mercado-de-trabalho, elas são fortes, têm coragem, podem com os homens – foi somente eles darem uma bobeada e lá estavam elas. “Do que as mulheres gostam” está aí para nos comprovar, para nos dizer que as mulheres tem seu emprego garantido e que somente os homens não se deram conta disso. Elas têm emprego, têm casa, têm carro, têm segurança, têm alimentação, têm educação: só não têm a afetividade dos homens. Somente por isso não lhes é permitido o sucesso completo – talvez somente pela graça do espírito do capitalismo os homens possam converter-se. E assim Maria da Esquina também poderá ser feliz ao dirigir-se a fila para procura do tão prometido emprego (procura dificultada por homens insensíveis, é claro); também Maria das Dores poderá ficar segura ao entregar seu filho na escola do bairro, já que a segurança é garantida por homens mais compreensíveis e a criminalidade tenha diminuído pela maior complacência dos bandidos; será o fim do martírio de Maria da Esperança, que não mais esperará angustiada a volta de seu marido – este sensível – da peregrinação pela busca por comida entre muitos homens insensíveis desse mundo... Mundo se sabe lá qual, visto que a globalização já tomou todo o particular, e ter noção de onde se passa esse filme nada serviria: a insensibilidade é universal.
         Impressões incrédulas podem tomar o expectador durante todo o filme – e muito mais além de seu tempo, com a possibilidade duma crônica ser escrita -, mas esses são realmente os insensíveis. A ironia da produção pode estar muito além daquilo que exibe intencionamente na tela, daquilo que inconseqüentemente produz na cabeça dos telespectadores: interage entre esses dois processos, para ser a própria negação não intencional a partir do que produziu de reações. É renascer pela própria negação daquele que não a produziu, e por isso mesmo não tem o direito de transforma-la direta e indiretamente de sua fala: como se um desejo mesquinho infinito de vinganção surgisse na base da crítica. Na sua negação do contexto, o filme mostra a dura realidade que pode – e é certo de – estar afetando a própria vida do telespectador crítica da produção. A incomunicabilidade entre os seres humanos talvez seja a própria incapacidade da natureza humana em sua relação com o social. Não nos é possível por qualquer meio concebível e inconcebível chegarmos a verdade da psicanálise: Freud não conseguiu, genticistas não conseguiram, o social não conseguiu. Em vista dessa incapacidade de nos entendermos em nossa verdade, surge então o social, que impõe-nos uma verdade entre as diversas que criamos: um consenso entre milhares tem que ser imposto para que o mínimo de vivência possamos ter. Mas não é o que os críticos mais exaltados e perseguidores querem admitir, pois a verdade tem de estar em algum dos lados. Aqui a questão é bem ou mal, e a menor identificação da problemática do filme com a realidade é rejeitada, nem mesmo com a realidade projetada de perfeição. É assim que a insensibilidade cessa seu ciclo, e até mesmo os anti-anti-insesibilização são atacados pela falta de espaço ao acesso à verdade e sensibilidade do outro, renunciando a si mesmos. Pois é isso o que a lição final nos traz: renunciar a nós mesmo, até a melhor intenção que tivermos – (seja ela entrar em contato direto com a sensibilidade do outro ou não).
         Assim talvez possamos começar nossas relações de um outro ponto de vista: não tão pelo radical, não tão pela aceitação de tudo. Mas daí talvez se pense que uma volta a um passado mítico de uma época de não-degeneração tenha de ser trazida à tona, sendo somente possível nos regenerarmos quando da completa extinção dessa nossa vida impura. É então que se chegaria a um completo estado de loucura onde acabar com o outro seria a solução e a negação do primeiro objetivo estaria feita... Talvez não haja completa pureza e completa perfeição: o melhor caminho é o do meio termo – começando por mim, começando por você, mudando sem esperar pelo não imaginável, agora!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

J [27/04/2001]


            Juliana vivia com Marcos há três anos. Dormiam juntos todos os dias mas nunca transavam: não eram namorados. Apenas amigos de infância que resolveram entrar na rotina da vida em conjunto. Nada os prende entre si. Quando vêem estão almoçando juntos, conversando sobre mesmos assuntos ou indo de carona um com o outro para o trabalho. Se a vida fosse gloriosa e tudo pudesse desmoronar em um só instante! Juliana comentava com Marcos sua visão pós-moderna de mundo após um café aglutinado com caranguejos à sua volta. Formulava teorias que a levariam a Marte em um orgasmo super-ultra-mega-estimulado por um micro-vibrador que acabara de inventar. Ou melhor, propor o funcionamento interno de tal instrumento já inventado, mas não aperfeiçoado até certo ponto. Com as compras à sua volta e o molho de tomate seguro em sua mão. Uma gosminha de nariz no seu dedo; talvez de alguma limpadinha que dera não querendo que Marcos percebesse; ou de alguém que no supermercado deixara tal herança à Juliana, mesmo não sabendo quem ela seria. Tudo para simplesmente o molho despedaçar em suas mãos, já que o lacre da embalagem não estava bem lacrado e aquela merda da seladora (a máquina ou a pessoa?) não tinha considerações com a sua pessoa. Má fé das fábricas de molho de tomate, pois tanto faz o molho escorrer na tua mão ou na tua macarronada, já que você vai usar o molho, comprou-o é teu, deu dinheiro para o dono da empresa, então o tomate moído e embalado tão pessimamente é teu, enfia onde tu quiser, que se dane. Marcos pede para ela deixar o molho escorrer livremente por entre as mãos de Juliana. Não faz mal um pouco de molho entre os dedos, argumenta Marcos, já que você já está putrefando nessa vida e toda tua matéria vai virar polpa de tomate quando os vermes começarem a te roer por dentro. Pede para segurar de volta a caixa de tomate que ela havia jogado no lixo. Pede para pegar de volta no lixo, naquele lixo da cozinha, com toda aquelas cascas de ovo, cascas de alface carcomidas por minhocas, bolo estragado por vermes, seja lá o que for que ela colocou e que acha nojento, contanto que pegue e fique segurando no meio das mãos esperando a morte passar e pegar os dois para irem direto à qualquer lugar que não seja mais ali com aquela pessoa insuportável que não quer segurar a porra da caixa de tomate, triturados ao extremo e tão voláteis quanto suas vidas que podem ir para qualquer lugar além dali à todo o momento em que se descuidam dos pormenores dessa necessidade de subsistir entre caroços de azeitona na mesa e papel higiênico semi-usado na pia do banheiro. Enfia a cabeça e começa a gritar pelo molho de tomate. Talvez quisesse a caixa do molho do tomate, mas talvez quisesse restituir o molho primeiro e ser uma freak completa, como também fugir para o vazio da lata de lixo usando como desculpa o fato de não encontrar a caixinha amarela (mas como? estava com os olhos fechados e assim não poderia enxergar nada, como uma criança que fecha os olhos diante do perigo ou do medo de algo, na esperança de que passe logo o momento e sejamos todos felizes, para não perder o abraço do papai e da mamãe, principalmente o da mamãe, não sei se do papai, já que mamãe faz um doce delicioso, ou então abraçarmo-nos todos de uma vez em uma super gigante, ou sem roda, apenas aquela confusão de abraços sem sincronismo nenhum, mas eu te amo, eu te amo, eu te amo, todos vocês, eu sei que é um pouco vergonhoso mas eu sou sempre assim, desculpe, desculpe, mas eu amo..)... então? ah... deixe-me ver.... sei lá... sei lá... aqui talvez... era isso?... não... 1/2 hora e ela ali ainda meu deus piedoso dos carcomidos por transgênicos! talvez eu deva chamá-la ou então empurrá-la mais afundo nessa depressão concreta que, na minha opinião, todo mundo deveria ter, só para parar com esse academecismo besta de fundo de quintal de apartamento, que nunca existe... sei lá, vomitar também faria muito bem, já que estamos todos enauseados... blá, blá, blá..,...................seeufodessecomovocêtodanoiteegozassenolençolquemsabeosanjoscaluniadosporminhasvozesdopassadonãoseriamrestituidosaoladodedeuseentãoeuseriaamadoporvocê? Deixe-me em paz! É isso que eu quero! Nada me prende a nada já que eu não sei bem o que dizer! Creeps hipotéticos de beleza pré-regulada por fatores biologicamente modificaos em trangenicidas que enegrecem meus dentes! Percebe-os mais escuros do que ontem, com aquele buraco provocado por seu triste conto idiota de um realismo racionalista pró-verdades acadêmicas me fez, ao descontrolar meu carro e bater naquela porra de quarto? Senhores, o que lhes peço é juuuuuuuuuuuízo! Com seu casco Juliana fica de 4 e começa a lamber o chão. Marcos chega ao ouvido de Juliana e diz: seu cú é redondo e tua tragédia é expressão de meus olhos ensangüentados pela navalha que corta o bico dos teus seios... suavemente enfia a lingua em seu ouvido e começa a fazer movimentos circulares com tal. Vai rápido e rápido, em eterno ciclo, até as 6 da manhã daquele sábado nublado. Suas vidas mudaram e ele saiu do lado dela com a barba corta e o dente escarniçado por bactérias antropófagas de gosmo-química pré-nuclear ultra sangue sugas de gela bisbilhoteira, só porque o sangue de seus olhos cicatrizou e agora é cego. Meu deus, meu deus, seu cú de geléia redonda de mármore sintético... eleécego!

domingo, 14 de agosto de 2011

Devaneios de um brasileiro sem rumo [26/10/2000]


Devaneios de um brasileiro sem rumo


      "A vida tem um sabor amargo...". Enquanto me deixo levar pelo fluxo aleatório de uma rua qualquer, tento descobrir o que sinto das coisas. Penso nos sabores que a vida poderia ter. Não haveria graça se a vida pudesse ser degustada simplesmente, para se saber, de uma única vez, que gosto tem. Seus gostos se escondem em cantos de difícil acesso, e a degustação envolve sensibilidade e um prazer singular. Por isso a vida talvez tenha um sabor amargo para mim; que sabores tenho eu experimentado da vida? Nunca parei para pensar em mim mesmo e, agora tentando descobrir o sentido das coisas, invariavelmente deparo-me com esse descaso pela minha pessoa.
      "Sou um brasileiro que pouco sente em si mesmo as raízes que formam esse povo tão diverso!". Lembro-me que sou um brasileiro. Acho que por não me identificar com os estereótipos nacionais não me venha a cabeça um sentimento nacionalista. E ser nacionalista para mim não é dizer que o Brasil é o melhor país do mundo. É simplesmente ter uma identificação com essa terra.
      Dentre as paisagens montanhosas de Minas Gerais eu viveria. É preciso dar asas à imaginação, às vezes, senão existir se torna maçante. Nunca estive em Minas, mas o pouco que sei sobre essa terra vem dos relatos que ouvi e do excitante mundo dos livros (sim, dos livros!). Posso imaginar-me em Minas, correndo solto pelas ruas de suas cidades históricas. Sem rumo, apenas para sentir o gosto descompromissado de um pão-de-queijo... Assim esqueço o sabor amargo da vida. Nas casas de Vila Velha posso sentir a existência de uma história nacional por mim desprezada. Para que entender a história de um povo? Mas as paredes dos casarões históricos, que carregam consigo o peso dos acontecimentos seculares, me aguçam o sabor do antigo. Dão-me a sensação de estar sendo transportado para o passado; e eu participo dos fatos, vivo os fatos, que aconteceram há tempos e tiveram importância para o Brasil.
      A identidade parece ter passado a ter algum valor para mim; um valor pessoal e de auto-estima. Como se fosse para sanar alguma espécie de culpa ou desejo de importância. Por um momento a vida volta a ter um gosto amargo, e me sinto desnorteado. Perco os sabores de Minas (diga-se de passagem muito palatáveis), e talvez seja melhor dar um tempo aos pensamentos. "Incrível, Minas deixou um gostinho de quero-mais!"
      "Serei eu o nordestino que se desilude com as promessas de uma metrópole?". Momento de indagação e receio. Talvez eu seja um pouco do nordestino que cai em si e percebe o absurdo em que se encontra, quando vê desabarem os sonhos que a cidade grande poderia lhe trazer. Os nordestinos têm o sabor salgado e rude de uma carne-de-sol. Rude assim também é o sol que castiga o sertão. E o sertão é como certos momentos da vida. É o teor ressequido da vida, com sua dureza e falta de perspectiva quando ao longe só se enxerga o vazio de um céu azul. A boca seca, a pele não bronzeia, enegrece; as nuvens são esparsas e a sombra do juazeiro é o único amigo nessa batalha pela sobrevivência. As situações cada vez pioram e o gado está sedento e morre e morre... Qual o sentido disso tudo? Mesmo não sabendo para onde tudo continua, os sertanejos persistem. Com um pouco de esperança ainda têm forças para o amor, mesmo um amor tímido e platônico. Como em momentos da vida em que tudo está vedado à queda, e o único prazer que se tem é rir da desgraça, sempre pensando que para tudo se dá um "jeitinho"...
      "Ah, que belas pernas as da morena que passa! Posso sentir o leve gosto de um beijo seu, morena! E está tão só: precisa de um homem!". Libido, machismo ou carência? O homem às vezes é tão frágil que se desmorona ao passar de uma mulher. Alegra-me o pensamento, tirando o gosto ruim da tristeza de há pouco. Dos nordestinos e sertanejos que me comovem. Não de simples comoção, mas de identificação com a luta diária pela sobrevivência. E como seria difícil estar privado do passar da morena! E por que me vem à cabeça estar parecendo um desses gaúchos machões? Gaúcho dos pampas e do clima frio. Que desacorçoa mulheres, não desperdiça um rabo de saia e é louco por uma briga. Bem, pelo menos isso é o que me vem a cabeça sobre os gaúchos. Talvez seja tudo folclore, mas dos gaúchos se conhece bem a tradição do cuidado com a terra e de luta por ela. Não só os gaúchos, mas todo o pessoal do sul tem uma história de luta. Talvez sejam exemplos de brasileiros a serem seguidos.
      "Como tenho noção disso tudo? E sinto tudo com um enorme grau de realidade e comoção...". Aos poucos vou me rendendo ao gostinho brasileiro, mesmo às vezes havendo só fome. E percebo que uma grande parte do brasileiro está em mim. Talvez os meios-de-comunicação, tenham um grande papel nisso tudo, pelo menos nos dias de hoje. Também me lembro que sou um homem moderno. E o homem moderno brasileiro, quem será este? Existiria tal homem? Penso... Penso... "Por que sou tão alienado, por quê?". Lembro-me: os modernistas de 22. Tão sem perspectivas e desamparados após a demolição dos modelos europeus, esses jovens que iriam ser modernistas! Jovens incrédulos como eu, que resolveram destruir com tudo para construir o novo. Então poesias sem rimas, histórias sem nexo aparente, música fora dos padrões clássicos, pinturas disformes.  E o mais notável: sempre buscando descobrir uma cultura nacional desconhecida para a época. De gosto novo que desafia o paladar conservador; às vezes amargo, às vezes picante, o sabor modernista só é bem-vindo a quem não tem medo de degustar o inovador.
      Ah, tantos jeitos, tantas formas, tantos valores, tantos, tantos... Quanta fertilidade, quantos sabores, quantas nuances e quanta exaltação à toa! É fácil exaltar mil qualidades e pensar que tudo se resolve juntando qualidades daqui e dali formando-se uma identidade coletiva que me representa. Sabe, são muitas dúvidas e muitos reflexões. E dúvidas e reflexões geram respostas, mesmo que essas não sejam totalmente corretas. Não há uma decisão certa a ser tomada, e o mais importante (é o que descobri disso tudo) é saber lidar com essa infinitude de dúvidas, respostas e sabores.
      Sem rumo, durante esses momentos de reflexão que me propiciei, talvez tenha conseguido dar uma direção à minha própria identidade. Ter uma própria identidade é saber degustar, diferenciadamente, cada sabor que compõe nossa cultura. Não há uma cultura mais digna do que outra, que comigo valha mais e também me seja mais digna. Na verdade sou como a identidade brasileira. Uma identidade nacional que busca seu verdadeiro sentido de ser e existir, que não se define singularmente e vem de um passado conturbado. "Não sou um só; tenho que ser a perfeita convivência entre meus eus..."