Juliana vivia com Marcos há três anos. Dormiam juntos todos os dias mas nunca transavam: não eram namorados. Apenas amigos de infância que resolveram entrar na rotina da vida em conjunto. Nada os prende entre si. Quando vêem estão almoçando juntos, conversando sobre mesmos assuntos ou indo de carona um com o outro para o trabalho. Se a vida fosse gloriosa e tudo pudesse desmoronar em um só instante! Juliana comentava com Marcos sua visão pós-moderna de mundo após um café aglutinado com caranguejos à sua volta. Formulava teorias que a levariam a Marte em um orgasmo super-ultra-mega-estimulado por um micro-vibrador que acabara de inventar. Ou melhor, propor o funcionamento interno de tal instrumento já inventado, mas não aperfeiçoado até certo ponto. Com as compras à sua volta e o molho de tomate seguro em sua mão. Uma gosminha de nariz no seu dedo; talvez de alguma limpadinha que dera não querendo que Marcos percebesse; ou de alguém que no supermercado deixara tal herança à Juliana, mesmo não sabendo quem ela seria. Tudo para simplesmente o molho despedaçar em suas mãos, já que o lacre da embalagem não estava bem lacrado e aquela merda da seladora (a máquina ou a pessoa?) não tinha considerações com a sua pessoa. Má fé das fábricas de molho de tomate, pois tanto faz o molho escorrer na tua mão ou na tua macarronada, já que você vai usar o molho, comprou-o é teu, deu dinheiro para o dono da empresa, então o tomate moído e embalado tão pessimamente é teu, enfia onde tu quiser, que se dane. Marcos pede para ela deixar o molho escorrer livremente por entre as mãos de Juliana. Não faz mal um pouco de molho entre os dedos, argumenta Marcos, já que você já está putrefando nessa vida e toda tua matéria vai virar polpa de tomate quando os vermes começarem a te roer por dentro. Pede para segurar de volta a caixa de tomate que ela havia jogado no lixo. Pede para pegar de volta no lixo, naquele lixo da cozinha, com toda aquelas cascas de ovo, cascas de alface carcomidas por minhocas, bolo estragado por vermes, seja lá o que for que ela colocou e que acha nojento, contanto que pegue e fique segurando no meio das mãos esperando a morte passar e pegar os dois para irem direto à qualquer lugar que não seja mais ali com aquela pessoa insuportável que não quer segurar a porra da caixa de tomate, triturados ao extremo e tão voláteis quanto suas vidas que podem ir para qualquer lugar além dali à todo o momento em que se descuidam dos pormenores dessa necessidade de subsistir entre caroços de azeitona na mesa e papel higiênico semi-usado na pia do banheiro. Enfia a cabeça e começa a gritar pelo molho de tomate. Talvez quisesse a caixa do molho do tomate, mas talvez quisesse restituir o molho primeiro e ser uma freak completa, como também fugir para o vazio da lata de lixo usando como desculpa o fato de não encontrar a caixinha amarela (mas como? estava com os olhos fechados e assim não poderia enxergar nada, como uma criança que fecha os olhos diante do perigo ou do medo de algo, na esperança de que passe logo o momento e sejamos todos felizes, para não perder o abraço do papai e da mamãe, principalmente o da mamãe, não sei se do papai, já que mamãe faz um doce delicioso, ou então abraçarmo-nos todos de uma vez em uma super gigante, ou sem roda, apenas aquela confusão de abraços sem sincronismo nenhum, mas eu te amo, eu te amo, eu te amo, todos vocês, eu sei que é um pouco vergonhoso mas eu sou sempre assim, desculpe, desculpe, mas eu amo..)... então? ah... deixe-me ver.... sei lá... sei lá... aqui talvez... era isso?... não... 1/2 hora e ela ali ainda meu deus piedoso dos carcomidos por transgênicos! talvez eu deva chamá-la ou então empurrá-la mais afundo nessa depressão concreta que, na minha opinião, todo mundo deveria ter, só para parar com esse academecismo besta de fundo de quintal de apartamento, que nunca existe... sei lá, vomitar também faria muito bem, já que estamos todos enauseados... blá, blá, blá..,...................seeufodessecomovocêtodanoiteegozassenolençolquemsabeosanjoscaluniadosporminhasvozesdopassadonãoseriamrestituidosaoladodedeuseentãoeuseriaamadoporvocê? Deixe-me em paz! É isso que eu quero! Nada me prende a nada já que eu não sei bem o que dizer! Creeps hipotéticos de beleza pré-regulada por fatores biologicamente modificaos em trangenicidas que enegrecem meus dentes! Percebe-os mais escuros do que ontem, com aquele buraco provocado por seu triste conto idiota de um realismo racionalista pró-verdades acadêmicas me fez, ao descontrolar meu carro e bater naquela porra de quarto? Senhores, o que lhes peço é juuuuuuuuuuuízo! Com seu casco Juliana fica de 4 e começa a lamber o chão. Marcos chega ao ouvido de Juliana e diz: seu cú é redondo e tua tragédia é expressão de meus olhos ensangüentados pela navalha que corta o bico dos teus seios... suavemente enfia a lingua em seu ouvido e começa a fazer movimentos circulares com tal. Vai rápido e rápido, em eterno ciclo, até as 6 da manhã daquele sábado nublado. Suas vidas mudaram e ele saiu do lado dela com a barba corta e o dente escarniçado por bactérias antropófagas de gosmo-química pré-nuclear ultra sangue sugas de gela bisbilhoteira, só porque o sangue de seus olhos cicatrizou e agora é cego. Meu deus, meu deus, seu cú de geléia redonda de mármore sintético... eleécego!
Editorial
"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]
* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.
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