Eu não esperava por uma batida na porta. Alguém bateu. Suavemente, dando um efeito prolongado ao barulho do contato entre a mão e a porta. Eu não queria levantar. Levanto-me. Cambaleio, a brusca mudança de posição e o ambiente escuro me fazem quase bater nos poucos móveis de minha sala. Tento ir em direção ao som que escutei e seguro firmemente em uma maçaneta que me aparecera. Giro-a bruscamente e quase caio de frente a um vulto que me intimida com sua presença. A luz do dia ensolarado lá de fora, contrastando com a densa escuridão de meu apartamento, faz com que eu só perceba as voltas de quem batera a porta, irritando-me a visão e fazendo-me só poder escutar:
- Olá, posso entrar? - diz timidamente uma voz de mulher que não me é estranha. Ela invade meu apartamento, não se importando com a minha presença.
- Hei, quem é você? - tento ser o mais rude que posso naquele momento, mas falho com a confusão que toma conta de mim. Sôo como uma criança.
- Sou eu... apenas eu... - ela senta-se desleixadamente em meu pequeno sofá e me faz ter um frio na espinha com o tom de voz que eu acabara de ouvir.
"Como ela pôde? Nunca faria isso se fosse realmente ela!" - minha primeira reação foi negar as hipóteses que formulava sobre o que estava acontecendo naqueles momentos. "Ok, eu jurei não acreditar no escrúpulo humano. Mas justamente ela, agora, traindo minhas esperanças duas vezes?" - Não havia como escapar; era ela e não podia ser mais ninguém. O passado me fitava novamente sem eu lhe haver pedido, trazendo a decepção que eu tanto pensara ter resolvido.
- Sim, é você. Novamente?
- Talvez. O nada tem de ser construído, não?
- E é com o nada que nos deparamos agora, esperando ser resolvido. Mas acho que é o passado que devemos resolver...
- O passado já era, como o próprio sentido de passado pode significar.
- Pode ser que eu use a palavra errada, mas acho que não é passado, e sim egoísmo. Sabe, é difícil ter de encarar o nada com um grande peso nas costas. Também é difícil superar certas barreiras e tê-las de encarar novamente.
- Tudo bem, eu não consigo ser tão subjetiva quanto você, prefiro ir direto aos fatos. Como você eu superei o que aconteceu entre nós dois, e não é sobre isso que vim até aqui. Eu vim falar sobre mim... - ela parara repentinamente o momento de exaltação e sua fisionomia demonstrava ao mesmo tempo decepção e angústia pelo o que dissera - Tem algo forte para a gente beber? Conhaque ou algo parecido? - a cabeça apoiou-se nos braços sobre o joelho; ela solta uma baforada em sinal de desespero.
- Tenho conhaque, sim. Mas, olhe... Não, esquece. Vou pegar os copos na cozinha... - Não quis continuar a dialogar para não começar a discutir, como sempre detestei em meu relacionamento com ela.
Na cozinha caminhei vagarosamente para tentar esfriar a cabeça e me preparar para o que haveria de acontecer naquele encontro inesperado. Ela fora a última pessoa com quem consegui me relacionar, seriamente, em 6 meses, desde que nos separamos. Talvez eu tenha ficado traumatizado com a experiência que tivemos juntos, de excentricidade e muita ambiguidade, e tê-la culpado por não mais conseguir estabilizar minha situação amorosa com alguém que gostasse. E é por causa dela, também, que me irrito à toa se alguém fica a mexer em meus CD's, como ela o faz agora, provavelmente debruçada em cima deles e condenando-me pelo meu horrível gosto. Não tolero tal intrometimento e pego logo de vez os copos e me dirijo até a sala para censurar-lhe duramente e expulsar logo da minha vida essa massa de problemas.
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