Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

domingo, 14 de agosto de 2011

Devaneios de um brasileiro sem rumo [26/10/2000]


Devaneios de um brasileiro sem rumo


      "A vida tem um sabor amargo...". Enquanto me deixo levar pelo fluxo aleatório de uma rua qualquer, tento descobrir o que sinto das coisas. Penso nos sabores que a vida poderia ter. Não haveria graça se a vida pudesse ser degustada simplesmente, para se saber, de uma única vez, que gosto tem. Seus gostos se escondem em cantos de difícil acesso, e a degustação envolve sensibilidade e um prazer singular. Por isso a vida talvez tenha um sabor amargo para mim; que sabores tenho eu experimentado da vida? Nunca parei para pensar em mim mesmo e, agora tentando descobrir o sentido das coisas, invariavelmente deparo-me com esse descaso pela minha pessoa.
      "Sou um brasileiro que pouco sente em si mesmo as raízes que formam esse povo tão diverso!". Lembro-me que sou um brasileiro. Acho que por não me identificar com os estereótipos nacionais não me venha a cabeça um sentimento nacionalista. E ser nacionalista para mim não é dizer que o Brasil é o melhor país do mundo. É simplesmente ter uma identificação com essa terra.
      Dentre as paisagens montanhosas de Minas Gerais eu viveria. É preciso dar asas à imaginação, às vezes, senão existir se torna maçante. Nunca estive em Minas, mas o pouco que sei sobre essa terra vem dos relatos que ouvi e do excitante mundo dos livros (sim, dos livros!). Posso imaginar-me em Minas, correndo solto pelas ruas de suas cidades históricas. Sem rumo, apenas para sentir o gosto descompromissado de um pão-de-queijo... Assim esqueço o sabor amargo da vida. Nas casas de Vila Velha posso sentir a existência de uma história nacional por mim desprezada. Para que entender a história de um povo? Mas as paredes dos casarões históricos, que carregam consigo o peso dos acontecimentos seculares, me aguçam o sabor do antigo. Dão-me a sensação de estar sendo transportado para o passado; e eu participo dos fatos, vivo os fatos, que aconteceram há tempos e tiveram importância para o Brasil.
      A identidade parece ter passado a ter algum valor para mim; um valor pessoal e de auto-estima. Como se fosse para sanar alguma espécie de culpa ou desejo de importância. Por um momento a vida volta a ter um gosto amargo, e me sinto desnorteado. Perco os sabores de Minas (diga-se de passagem muito palatáveis), e talvez seja melhor dar um tempo aos pensamentos. "Incrível, Minas deixou um gostinho de quero-mais!"
      "Serei eu o nordestino que se desilude com as promessas de uma metrópole?". Momento de indagação e receio. Talvez eu seja um pouco do nordestino que cai em si e percebe o absurdo em que se encontra, quando vê desabarem os sonhos que a cidade grande poderia lhe trazer. Os nordestinos têm o sabor salgado e rude de uma carne-de-sol. Rude assim também é o sol que castiga o sertão. E o sertão é como certos momentos da vida. É o teor ressequido da vida, com sua dureza e falta de perspectiva quando ao longe só se enxerga o vazio de um céu azul. A boca seca, a pele não bronzeia, enegrece; as nuvens são esparsas e a sombra do juazeiro é o único amigo nessa batalha pela sobrevivência. As situações cada vez pioram e o gado está sedento e morre e morre... Qual o sentido disso tudo? Mesmo não sabendo para onde tudo continua, os sertanejos persistem. Com um pouco de esperança ainda têm forças para o amor, mesmo um amor tímido e platônico. Como em momentos da vida em que tudo está vedado à queda, e o único prazer que se tem é rir da desgraça, sempre pensando que para tudo se dá um "jeitinho"...
      "Ah, que belas pernas as da morena que passa! Posso sentir o leve gosto de um beijo seu, morena! E está tão só: precisa de um homem!". Libido, machismo ou carência? O homem às vezes é tão frágil que se desmorona ao passar de uma mulher. Alegra-me o pensamento, tirando o gosto ruim da tristeza de há pouco. Dos nordestinos e sertanejos que me comovem. Não de simples comoção, mas de identificação com a luta diária pela sobrevivência. E como seria difícil estar privado do passar da morena! E por que me vem à cabeça estar parecendo um desses gaúchos machões? Gaúcho dos pampas e do clima frio. Que desacorçoa mulheres, não desperdiça um rabo de saia e é louco por uma briga. Bem, pelo menos isso é o que me vem a cabeça sobre os gaúchos. Talvez seja tudo folclore, mas dos gaúchos se conhece bem a tradição do cuidado com a terra e de luta por ela. Não só os gaúchos, mas todo o pessoal do sul tem uma história de luta. Talvez sejam exemplos de brasileiros a serem seguidos.
      "Como tenho noção disso tudo? E sinto tudo com um enorme grau de realidade e comoção...". Aos poucos vou me rendendo ao gostinho brasileiro, mesmo às vezes havendo só fome. E percebo que uma grande parte do brasileiro está em mim. Talvez os meios-de-comunicação, tenham um grande papel nisso tudo, pelo menos nos dias de hoje. Também me lembro que sou um homem moderno. E o homem moderno brasileiro, quem será este? Existiria tal homem? Penso... Penso... "Por que sou tão alienado, por quê?". Lembro-me: os modernistas de 22. Tão sem perspectivas e desamparados após a demolição dos modelos europeus, esses jovens que iriam ser modernistas! Jovens incrédulos como eu, que resolveram destruir com tudo para construir o novo. Então poesias sem rimas, histórias sem nexo aparente, música fora dos padrões clássicos, pinturas disformes.  E o mais notável: sempre buscando descobrir uma cultura nacional desconhecida para a época. De gosto novo que desafia o paladar conservador; às vezes amargo, às vezes picante, o sabor modernista só é bem-vindo a quem não tem medo de degustar o inovador.
      Ah, tantos jeitos, tantas formas, tantos valores, tantos, tantos... Quanta fertilidade, quantos sabores, quantas nuances e quanta exaltação à toa! É fácil exaltar mil qualidades e pensar que tudo se resolve juntando qualidades daqui e dali formando-se uma identidade coletiva que me representa. Sabe, são muitas dúvidas e muitos reflexões. E dúvidas e reflexões geram respostas, mesmo que essas não sejam totalmente corretas. Não há uma decisão certa a ser tomada, e o mais importante (é o que descobri disso tudo) é saber lidar com essa infinitude de dúvidas, respostas e sabores.
      Sem rumo, durante esses momentos de reflexão que me propiciei, talvez tenha conseguido dar uma direção à minha própria identidade. Ter uma própria identidade é saber degustar, diferenciadamente, cada sabor que compõe nossa cultura. Não há uma cultura mais digna do que outra, que comigo valha mais e também me seja mais digna. Na verdade sou como a identidade brasileira. Uma identidade nacional que busca seu verdadeiro sentido de ser e existir, que não se define singularmente e vem de um passado conturbado. "Não sou um só; tenho que ser a perfeita convivência entre meus eus..."

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