“Do que as garotas gostam”: um daqueles filmes hollywoodinos: primeiras impressões após alguns minutos de filme. Um publicitário bem sucedido em sua carreira profissional, levando as garotas que quer para a cama. O típico machão que não reconhece a sensibilidade diferenciada das mulheres. Somente a reconhece em vista de seus interesses não afetivos, mas sexuais: muito mais amor-próprio do que amor de si. Porém os sinais para sua vida não são favoráveis, o que se verifica com o divórcio, seu desacerto com a ex-mulher. Tudo parece configurar-se para que uma boa lição de vida venha lhe mostrar o quanto sua vida corre pela “estrada errada” sob a superfície aparentemente bem constituída. Um típico enredo hollywoodiano, herdando as tradições protestantes da sociedade americana de formação do século XVII e XVIII: o espírito protestante e a ética do capitalismo? No filme a ética do capitalismo é totalmente salva: sem questionamentos nem discussões sobre a ordem vigente – esta já se solidificou sob a vida das pessoas. Quem há de questionar o que se vê de tão perfeito e exato na solidez que o capitalismo pode nos trazer, com seus belíssimos arranha-céus, escritórios maravilhosos, casas elegantemente arquitetadas, festas avassaladoramente planejadas? O que não dá certo é culpa das pessoas: homens e mulheres não se entendem por culpa dos homens, a falta de insensibilidade destes. Apenas o acaso e a intervenção divina podem salvar o homem liberal deste começo de século. Estamos começando e o melhor é retomar o homem encantado, aquele que acreditava nos deuses, mitos, no sobrenatural e mantinha sua vida em pleno equilíbrio: a presença espiritual e inexplicável há de nos salvar dessa vida pretensamente secular e racional – fundada em preceitos verdadeiros relativizáveis, é claro! Assim também é que os filmes não podem mais ser encarados como meras fantasias da alma humana e como mera imagens da realidade. Pois agora são concretizáveis e é preciso que o telespectador saiba realizar a tarefa que poucos entenderão; é preciso dar espaço ao inconsciente, ao incogniscível, ao não-racional e apenas aceitar aquela imagem subliminar que nos é possível captar pela paixão. É preciso deixar-se tomar pelo irracional e pela sensibilidade diferenciada que todas as mulheres possuem: é preciso saber o que o outro tem a nos dizer através dessa sensibilidade inata que todos carregamos.
Talvez todas as mulheres tenham algo de comum. Talvez todas sejam tão cuidadosas com aquilo que fazem, sejam tão responsáveis com o que pensam e produzem, sejam às vezes tão indecisas e tão duras consigo mesmas. Assim pode ser que muitas preocupam-se incessantemente com o cabelo, com a roupa, com a beleza, como um deslocamento do objeto de responsabilidade. E assim talvez sejam todas as mulheres, passíveis de serem entendidas por essas qualidades inerentes da alma feminina que lhes é dado: aliás todos tivemos mães um dia e sabemos como elas são. Mas é assim que nenhuma delas é afetada por situações vividas no dia-a-dia, nas notícias de jornal, nas compras no supermercado, no trânsito para levar as crianças a escola, na conversa comas vizinhas e com o marido cansado à tarde. Não são afetadas, não, pois veja como é a força feminina: seu espaço é garantido no mercado-de-trabalho, elas são fortes, têm coragem, podem com os homens – foi somente eles darem uma bobeada e lá estavam elas. “Do que as mulheres gostam” está aí para nos comprovar, para nos dizer que as mulheres tem seu emprego garantido e que somente os homens não se deram conta disso. Elas têm emprego, têm casa, têm carro, têm segurança, têm alimentação, têm educação: só não têm a afetividade dos homens. Somente por isso não lhes é permitido o sucesso completo – talvez somente pela graça do espírito do capitalismo os homens possam converter-se. E assim Maria da Esquina também poderá ser feliz ao dirigir-se a fila para procura do tão prometido emprego (procura dificultada por homens insensíveis, é claro); também Maria das Dores poderá ficar segura ao entregar seu filho na escola do bairro, já que a segurança é garantida por homens mais compreensíveis e a criminalidade tenha diminuído pela maior complacência dos bandidos; será o fim do martírio de Maria da Esperança, que não mais esperará angustiada a volta de seu marido – este sensível – da peregrinação pela busca por comida entre muitos homens insensíveis desse mundo... Mundo se sabe lá qual, visto que a globalização já tomou todo o particular, e ter noção de onde se passa esse filme nada serviria: a insensibilidade é universal.
Impressões incrédulas podem tomar o expectador durante todo o filme – e muito mais além de seu tempo, com a possibilidade duma crônica ser escrita -, mas esses são realmente os insensíveis. A ironia da produção pode estar muito além daquilo que exibe intencionamente na tela, daquilo que inconseqüentemente produz na cabeça dos telespectadores: interage entre esses dois processos, para ser a própria negação não intencional a partir do que produziu de reações. É renascer pela própria negação daquele que não a produziu, e por isso mesmo não tem o direito de transforma-la direta e indiretamente de sua fala: como se um desejo mesquinho infinito de vinganção surgisse na base da crítica. Na sua negação do contexto, o filme mostra a dura realidade que pode – e é certo de – estar afetando a própria vida do telespectador crítica da produção. A incomunicabilidade entre os seres humanos talvez seja a própria incapacidade da natureza humana em sua relação com o social. Não nos é possível por qualquer meio concebível e inconcebível chegarmos a verdade da psicanálise: Freud não conseguiu, genticistas não conseguiram, o social não conseguiu. Em vista dessa incapacidade de nos entendermos em nossa verdade, surge então o social, que impõe-nos uma verdade entre as diversas que criamos: um consenso entre milhares tem que ser imposto para que o mínimo de vivência possamos ter. Mas não é o que os críticos mais exaltados e perseguidores querem admitir, pois a verdade tem de estar em algum dos lados. Aqui a questão é bem ou mal, e a menor identificação da problemática do filme com a realidade é rejeitada, nem mesmo com a realidade projetada de perfeição. É assim que a insensibilidade cessa seu ciclo, e até mesmo os anti-anti-insesibilização são atacados pela falta de espaço ao acesso à verdade e sensibilidade do outro, renunciando a si mesmos. Pois é isso o que a lição final nos traz: renunciar a nós mesmo, até a melhor intenção que tivermos – (seja ela entrar em contato direto com a sensibilidade do outro ou não).
Assim talvez possamos começar nossas relações de um outro ponto de vista: não tão pelo radical, não tão pela aceitação de tudo. Mas daí talvez se pense que uma volta a um passado mítico de uma época de não-degeneração tenha de ser trazida à tona, sendo somente possível nos regenerarmos quando da completa extinção dessa nossa vida impura. É então que se chegaria a um completo estado de loucura onde acabar com o outro seria a solução e a negação do primeiro objetivo estaria feita... Talvez não haja completa pureza e completa perfeição: o melhor caminho é o do meio termo – começando por mim, começando por você, mudando sem esperar pelo não imaginável, agora!
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