Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Perdido no tempo [10/11/2000 - Trilogia Egotrips Eleitoraris (semi-crônicas semi-ficcionais)]

"A loucura do aprofundar-se e depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança a vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo."
Hilda Hilst - Com meus olhos de cão

                Bem, não há mais nada o que se fazer. Não foi uma boa noite de sono, nem sonhos tive. Preocupações, talvez, mas como disse, o que pode ser feito? Nada me convida a sair dessa cama; nem pretendo, nem quero. Ficarei o resto da vida nessa cama. Pelo menos hoje, não há dia pior do que hoje. Desculpem-me, mas não cumprimentarei meus vizinhos, não olharei nos olhos de meus colegas, quando eu os cruzar na rua, só a cabeça baixa. Sem exageros! Apenas quero ficar deitado um pouco mais nessa cama. O que há de se perder quando não se dorme durante uma noite e já é de manhã? Retraio-me pensando nos temores em que hei de enfrentar, encarando-os de mau gosto, sem gosto, cheio de angústia. Temores meus, tão meus que ninguém os pressente do lado de fora dessa casa, ou mesmo desse quarto. Apenas em meu cérebro, e isso é muito peculiar, muito inusitado; um tanto tolo, grandiosamente bobo. Preocupações bobas que esqueço-me do que realmente me preocupo: mesquinharia. Se assim o fossem, se assim o fossem...
                Tudo bem, levanto-me da cama e vou direto ao café. Assim talvez acordo, ou melhor, talvez eu tenha mais disposição. Para viver? Não penso em meus problemas enquanto não fizer o café, certo? Condições que imponho a mim mesmo, e o jogo fica cada vez mais truncado. Sou complicado, porém antes do café o banheiro. Só uma passada rápida: enojo-me do banheiro quando acordo... Não quero perceber que sou mais ridículo do que sou, sentado nessa privada! Mas não pense, não pense... Lave o rosto, acorde, não pense no que não quer pensar, acorde mais e encoraje-se mais, só mais um pouco e, vá preparar o café! Pele bonita, um pouco ressecada, mas o café me chama. Deixe Narciso para lá... Café, cafeteira, café, filtro, café, pó, café, tomada, café, café, café... Não pense, não pense... Pense, vamos, pense! Terror psicológico - masoquismo mental.
                Tenho que votar, e aí está a merda! Grande mer... Não é grande, mas é... E é para mim! O que eu fiz até agora para merecer toda essa merda que eu estou me sentindo? Não fiz nada, e essa é a merda. Deixa a merda para lá, pois nada disso tem a ver com merda, mas com... responsabilidade, talvez. E talvez eu esteja sendo duro comigo mesmo, mas não há como não ser, ou sentir-se culpado. Pode ser masoquismo, pensar que não tenho responsabilidade com algo que não é cobrado, ou que nem mesmo tem importância. É troxa, vão dizer os outros. E o que eu tenho feito para mudar as coisas? Nada além de aceitar que me chamem de troxa. Sou mais do que isso e devo fazer mais do que isso. Está ficando muito complicado essas coisas, que nem pensamentos mais sei se são. A verdade (se há um verdade para tudo) é que estou decepcionado com minha parte cidadão nessas eleições. A parte que deveria participar e, sabendo da responsabilidade de se participar, não tem forças para agir. Saber da responsabilidade é não estar na condição de alienado, porém é mais: é ter noção do real (a realidade é diferente do real) para contrair um compromisso, quase que involuntário, com o presente. Ao final tudo é menos complicado do que isso. É algo natural e que me angustia. Pois não se sabe como se deve agir, proceder ou simplesmente começar a se ser responsável. E em tratando-se de política, as coisas complicam. Há ideologia (mesmo se não combinar com política), interesse, moral, disputa, persuasão...
                Há quem ache política, eleição, voto, democracia partes de um todo muito sujo. Que não valha um tostão envolver-se nesses assuntos. Porém são valores que estão, ou deveriam estar, muito mais próximos de nós mesmos. Deveriam ser tão nossos que, ao discutirmos política, intimamente, nos sentiríamos violados tratando abertamente algo pessoal. Sem exageros, novamente, mas nada disso é artificial. Ninguém deve sentir-se de tal e tal jeito quando discute política. Apenas é algo que me é natural, ou me veio naturalmente. Então angustio-me nessas horas, quando reflito esperando o café passar pelo filtro de papel, ou como agora, tomando-o apesar de sua fraqueza (não torram mais café como antigamente!). Não angustio-me à toa, nem sou masoquista como tenho dito. O que acho é que tenho feito pouco para mim mesmo. É o engajamento gratuito, descompromissado de recompensas, fruto da pura reflexão. São as experiências que a vida traz e que qualquer um, inexoravelmente está vedado a desfrutar, sejam elas boas ou ruins. E somos seres sociais, tanto eu como meu vizinho ou colega. Até agora a única solução que o homem encontrou para conseguir sobreviver em meio à ferocidade natural, foi a integração entre seus semelhantes. Quem há de mudar o que se chama sociedade?
                Mesmo isolado da sociedade ainda dependemos dela. Não é possível tornar-se um ser solitário, execrando o meio de vida social, sem se desvincular da sociedade. Para se ser solitário é preciso se ter como referencial as outras pessoas. Talvez esteja tudo muito teorizado, porém é o que tenho comprovado na prática e nos diversos e longos momentos de reflexão que proporciono a minha pacata vida. Reflito mais do que vivo, e essa xícara cuja alça seguro neste momento, tem mais importância prática do que eu. É isso que me angustia! Não isso, isso e isso, tão fáceis de serem descritos. A situação inerte é meu maior medo, o que mais me intimida. Nessas eleições o que fiz eu de prático? Tudo bem, li nos jornais as propostas que os candidatos tinham e tirei minhas conclusões. Mas o que fiz eu lá fora, nas ruas, por exemplo? Nada além de assistir o horário político sentado, confortavelmente, em meu sofá. Enquanto isso milhares de pessoas participavam ativamente no meio político, seja ele qual for. Mesmo me considerando mais sábio do que muitos, tendo minhas confianças políticas, não me deixando alienar pelo tédio político, eu posso creditar-me como um verdadeiro cidadão político. Estou tão perto das verdades e tão longe das convicções que me fazem lutar por tais verdades. Isso me tortura, eu mesmo me torturo, fico a segurar o queixo, no desalento, inerte, sem saber o que fazer, tendo que tirar a mesa após um café pavoroso... Tanto tédio, tanta inércia!
                O que há de ser feito é justamente fazer. Isso mesmo. Por enquanto só posso realizar meu simples e raso direito de cidadão de um sistema democrático: votar. Se não lutei ou não participei ativamente, este não é o momento apropriado para agir. O processo democrático não é um processo imediatista. Por isso certas pessoas deveriam dar mais valor ao ato de se pensar e se refletir. E talvez isso eu tenha feito bem: pensar. Se hoje se tem medo, é um medo incerto que faz se desesperar; em meio ao desespero não se pensa, e o desejo de se ter a certeza de um medo único, é que faz sistemas totalitários vigorarem. Hoje alguém poderia dizer que uma ditadura nos seria melhor, em meio a tanta incerteza em que vivemos. Mas sem querer soar idealista, a democracia é um sistema justo que se constrói na luta do dia-a-dia, em que cada indivíduo tem sua parcela de participação. Então, mãos à obra, exerce um dever, para alguns, mas um direito, para mim. Trocarei de roupa, pegarei meu título de eleitor, olharei no espelho e direi que sou bonito (e não sou), sairei de casa e votarei. Teclas, teclas e triiimmm!!! Confiarei no meu poder de voto e sentirei que sou feliz, agora e daqui a pouco. Estes são momentos que de desilusão que vêm e passam, mas são só momentos... E o que é a vida senão um grande momento, mas bem grande mesmo? E todas as coisas nela, na vida, têm a importância única de se existir, inclusive política, ideologia e eleições. Assim, devo viver cada momento intensamente (carpe diem?) de engajamento e consciência, tão únicos do viver... Na verdade a vida é muito mais simples do que isso tudo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe tuas impressões: