"A loucura do
aprofundar-se e depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança a
vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo."
Hilda Hilst - Com meus olhos de cão
Bem,
não há mais nada o que se fazer. Não foi uma boa noite de sono, nem sonhos
tive. Preocupações, talvez, mas como disse, o que pode ser feito? Nada me
convida a sair dessa cama; nem pretendo, nem quero. Ficarei o resto da vida
nessa cama. Pelo menos hoje, não há dia pior do que hoje. Desculpem-me, mas não
cumprimentarei meus vizinhos, não olharei nos olhos de meus colegas, quando eu
os cruzar na rua, só a cabeça baixa. Sem exageros! Apenas quero ficar deitado
um pouco mais nessa cama. O que há de se perder quando não se dorme durante uma
noite e já é de manhã? Retraio-me pensando nos temores em que hei de enfrentar,
encarando-os de mau gosto, sem gosto, cheio de angústia. Temores meus, tão meus
que ninguém os pressente do lado de fora dessa casa, ou mesmo desse quarto.
Apenas em meu cérebro, e isso é muito peculiar, muito inusitado; um tanto tolo,
grandiosamente bobo. Preocupações bobas que esqueço-me do que realmente me
preocupo: mesquinharia. Se assim o fossem, se assim o fossem...
Tudo
bem, levanto-me da cama e vou direto ao café. Assim talvez acordo, ou melhor,
talvez eu tenha mais disposição. Para viver? Não penso em meus problemas
enquanto não fizer o café, certo? Condições que imponho a mim mesmo, e o jogo
fica cada vez mais truncado. Sou complicado, porém antes do café o banheiro. Só
uma passada rápida: enojo-me do banheiro quando acordo... Não quero perceber
que sou mais ridículo do que sou, sentado nessa privada! Mas não pense, não
pense... Lave o rosto, acorde, não pense no que não quer pensar, acorde mais e
encoraje-se mais, só mais um pouco e, vá preparar o café! Pele bonita, um pouco
ressecada, mas o café me chama. Deixe Narciso para lá... Café, cafeteira, café,
filtro, café, pó, café, tomada, café, café, café... Não pense, não pense...
Pense, vamos, pense! Terror psicológico - masoquismo mental.
Tenho
que votar, e aí está a merda! Grande mer... Não é grande, mas é... E é para
mim! O que eu fiz até agora para merecer toda essa merda que eu estou me
sentindo? Não fiz nada, e essa é a merda. Deixa a merda para lá, pois nada
disso tem a ver com merda, mas com... responsabilidade, talvez. E talvez eu
esteja sendo duro comigo mesmo, mas não há como não ser, ou sentir-se culpado.
Pode ser masoquismo, pensar que não tenho responsabilidade com algo que não é
cobrado, ou que nem mesmo tem importância. É troxa, vão dizer os outros. E o
que eu tenho feito para mudar as coisas? Nada além de aceitar que me chamem de
troxa. Sou mais do que isso e devo fazer mais do que isso. Está ficando muito
complicado essas coisas, que nem pensamentos mais sei se são. A verdade (se há
um verdade para tudo) é que estou decepcionado com minha parte cidadão nessas
eleições. A parte que deveria participar e, sabendo da responsabilidade de se
participar, não tem forças para agir. Saber da responsabilidade é não estar na
condição de alienado, porém é mais: é ter noção do real (a realidade é
diferente do real) para contrair um compromisso, quase que involuntário, com o
presente. Ao final tudo é menos complicado do que isso. É algo natural e que me
angustia. Pois não se sabe como se deve agir, proceder ou simplesmente começar
a se ser responsável. E em tratando-se de política, as coisas complicam. Há
ideologia (mesmo se não combinar com política), interesse, moral, disputa,
persuasão...
Há quem
ache política, eleição, voto, democracia partes de um todo muito sujo. Que não
valha um tostão envolver-se nesses assuntos. Porém são valores que estão, ou
deveriam estar, muito mais próximos de nós mesmos. Deveriam ser tão nossos que,
ao discutirmos política, intimamente, nos sentiríamos violados tratando
abertamente algo pessoal. Sem exageros, novamente, mas nada disso é artificial.
Ninguém deve sentir-se de tal e tal jeito quando discute política. Apenas é
algo que me é natural, ou me veio naturalmente. Então angustio-me nessas horas,
quando reflito esperando o café passar pelo filtro de papel, ou como agora,
tomando-o apesar de sua fraqueza (não torram mais café como antigamente!). Não
angustio-me à toa, nem sou masoquista como tenho dito. O que acho é que tenho
feito pouco para mim mesmo. É o engajamento gratuito, descompromissado de
recompensas, fruto da pura reflexão. São as experiências que a vida traz e que
qualquer um, inexoravelmente está vedado a desfrutar, sejam elas boas ou ruins.
E somos seres sociais, tanto eu como meu vizinho ou colega. Até agora a única
solução que o homem encontrou para conseguir sobreviver em meio à ferocidade
natural, foi a integração entre seus semelhantes. Quem há de mudar o que se
chama sociedade?
Mesmo
isolado da sociedade ainda dependemos dela. Não é possível tornar-se um ser
solitário, execrando o meio de vida social, sem se desvincular da sociedade. Para
se ser solitário é preciso se ter como referencial as outras pessoas. Talvez
esteja tudo muito teorizado, porém é o que tenho comprovado na prática e nos
diversos e longos momentos de reflexão que proporciono a minha pacata vida.
Reflito mais do que vivo, e essa xícara cuja alça seguro neste momento, tem
mais importância prática do que eu. É isso que me angustia! Não isso, isso e
isso, tão fáceis de serem descritos. A situação inerte é meu maior medo, o que
mais me intimida. Nessas eleições o que fiz eu de prático? Tudo bem, li nos
jornais as propostas que os candidatos tinham e tirei minhas conclusões. Mas o
que fiz eu lá fora, nas ruas, por exemplo? Nada além de assistir o horário
político sentado, confortavelmente, em meu sofá. Enquanto isso milhares de
pessoas participavam ativamente no meio político, seja ele qual for. Mesmo me
considerando mais sábio do que muitos, tendo minhas confianças políticas, não
me deixando alienar pelo tédio político, eu posso creditar-me como um verdadeiro
cidadão político. Estou tão perto das verdades e tão longe das convicções que
me fazem lutar por tais verdades. Isso me tortura, eu mesmo me torturo, fico a
segurar o queixo, no desalento, inerte, sem saber o que fazer, tendo que tirar
a mesa após um café pavoroso... Tanto tédio, tanta inércia!
O que
há de ser feito é justamente fazer. Isso mesmo. Por enquanto só posso realizar
meu simples e raso direito de cidadão de um sistema democrático: votar. Se não
lutei ou não participei ativamente, este não é o momento apropriado para agir.
O processo democrático não é um processo imediatista. Por isso certas pessoas
deveriam dar mais valor ao ato de se pensar e se refletir. E talvez isso eu
tenha feito bem: pensar. Se hoje se tem medo, é um medo incerto que faz se
desesperar; em meio ao desespero não se pensa, e o desejo de se ter a certeza
de um medo único, é que faz sistemas totalitários vigorarem. Hoje alguém
poderia dizer que uma ditadura nos seria melhor, em meio a tanta incerteza em
que vivemos. Mas sem querer soar idealista, a democracia é um sistema justo que
se constrói na luta do dia-a-dia, em que cada indivíduo tem sua parcela de
participação. Então, mãos à obra, exerce um dever, para alguns, mas um direito,
para mim. Trocarei de roupa, pegarei meu título de eleitor, olharei no espelho
e direi que sou bonito (e não sou), sairei de casa e votarei. Teclas, teclas e
triiimmm!!! Confiarei no meu poder de voto e sentirei que sou feliz, agora e
daqui a pouco. Estes são momentos que de desilusão que vêm e passam, mas são só
momentos... E o que é a vida senão um grande momento, mas bem grande mesmo? E
todas as coisas nela, na vida, têm a importância única de se existir, inclusive
política, ideologia e eleições. Assim, devo viver cada momento intensamente
(carpe diem?) de engajamento e consciência, tão únicos do viver... Na verdade a
vida é muito mais simples do que isso tudo!
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