Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Perdido no espaço [10/11/2000 - Trilogia Egotrips Eleitoraris (semi-crônicas semi-ficcionais)]

"O verme perdoa o arado que o corta." - William Blake - Provérbios do Inferno

                Uma boa noite de sono. Nada que revitalize mais. Gostaria de ter lembrado dos sonhos que tive, mas nada é perfeito. E seria uma noite perfeita ao ter me lembrado do que pensei durante essas 10 horas de sono. Não sei se poderia dizer que pensei algo; nem que alguém tenha pensado comigo; nunca parei para pensar se penso enquanto durmo, mas já penso, e é o suficiente. Ontem a noite foi boa, o sono foi bom e, como disse, tudo isso me revitaliza. Não apenas a noite de sonho, como também ter conversado com Liz. Pouco havia que se perder quando resolvi sair, e então encontro Liz: um pouco receosa, eu também. Troca de olhares, me aproximo, um pouco de conversa, até chegarmos a ser os humanos que somos, com bebida também, claro! Às vezes é preciso estar entediado para se divertir profundamente nesta vida... Então chateia-se, aborrece-se, desilude-se, com tudo, com todos, com você... Por o quê? Pela vida não lhe dar opções... Busca-se pessoas, divertimento, agitação, badalação, o feeling do envolvimento, paixão, o nada-importa. Ganha-se o cansaço e a cama tediosa de sempre torna-se um dos dois melhores lugares para se estar: nela ou envolto nos braços dela, da garota de há pouco. Por enquanto nada me convence a levantar, tenho a sensação de ter o tempo em minhas mãos. Tento lembrar-me dos sonhos que tive. Talvez tenham sido com ela, um idealização romântica de nós dois, juntos e impossíveis, se o que nos une só o é por uma noite apenas. A manhã, a tarde, o dia, todo hoje, são meus, sou onipotente, carrego a felicidade temporal de um domingo livre sem compromisso. Talvez tenha de me levantar para tomar o café e deixo os pensamentos incompletos. Mas tenho poder sobre o tempo, pelo menos hoje. Expurgo o tédio, direto à uma xícara de café...
                Infelizmente a noite passa e não sou mais o que eu era da última noite. Lavando o rosto, livro-me completamente dos últimos resquícios de ontem. Não gosto de dizer que vivo do passado. Acho muito cruel ter tal perspectiva, se é ao futuro que vamos. Pelo menos é o que pretendo, sem saber muito ao certo como. Porém momentos como esses são bons de serem lembrados, o que me dá uma grande dose de energia para pensar no que hei de fazer hoje. O que sou agora é refletido no espelho; nos pensamentos a nostalgia do passado. Hoje talvez eu deva viver novamente o ontem, ou então recriá-lo. Mas o que é rotina senão isso? Então a encontrarei, para alguns poucos beijos, algo que suponho valer à pena. Ela vale sim, não que eu pense em algo mais duradouro. Os lábios valem, com certeza... O aparelho de barba, ããhh, onde está? E ela, onde está? Nem ao menos sei onde você pode estar, querida... Ah, cacete, como não me lembrei disso antes? He, he, vi... hoje é dia de eleição, seu... seu... alienado! Vai, barbeia-te logo!
                Só eu mesmo para esquecer que hoje é dia de votação. E agora, o que faço, hein? Bem, posso votar até às 5. Agora são quase 10 horas. Deixe-me ver... O leite está ali, mas o café não está pronto... Então talvez eu deva almoçar, descanso um pouco, voto e me encontro com a Liz. É, mas antes de almoçar eu dou uma ligada prá ela. Pelo menos o número do telefone dela eu tenho; acho que tenho, se não o perdi. Café fraco, não fazem mais como antigamente, nem têm cafezais como os de antigamente. E por pensar em se perder, talvez eu esteja perdendo algo importante. Pois é, como se vota sem o número do candidato? Suponho que eu os tenha separado, e ontem mesmo eu recordo de tê-los anotados em um papel. Foi uma escolha difícil com toda certeza. Dá um pouco de medo pensar que se vai votar em uma urna eletrônica, pela primeira vez, que se pode errar, coisa e tal. Mas prá prefeito e vereador não tem tanta importância, porém se fosse para presidente o peso era maior. Daí que eu me desanimei um pouco para escolher não o melhor, mas o menos corrupto dentre todos esses candidatos sujos que aparecem por aí. Acreditar no que quando se vê só roubalheira? Acabo o café e o pão estava um pouco duro, porém me alegro ao lembrar onde havia guardado os números dos candidatos. Agora é só achar o número da Liz.
                Liguei para a Liz e é difícil acreditar que ela tenha me dito que não está afim de sair hoje. Dor-de-cabeça, mas todo mundo tem dor-de-cabeça. Que nada, o que será? Ela custou a me reconhecer no telefone, e se não fosse eu insistir no meu nome e sobre ontem à noite ela não teria me falado sobre sua dor-de-cabeça. Talvez não tenha dormido bem essa noite, ou nem tenha dormido e por isso não me reconheceu. Talvez as bebidas. Umas faca de dois gumes: não se lembra de mim por que bebeu ou ficou comigo por que bebeu. Quem sou eu para me iludir? Um babaca, com certeza. Esqueça-a e é o melhor que há de ser feito. Assim não se sente usado nem nada. Mas a verdade seja dita: eu fui usado. Isso é o que se consegue quando se diz que não há amor verdadeiro, e que se acredita apenas em liberdade, amizade e respeito em um relacionamento. O que se perde são as perspectivas de um domingo à tarde, mas tudo bem...
                Agora só me resta votar, andar um pouco por aí, esperar o tempo passar e senti-lo escapar do controle. Não se é mais onipotente. E o domingo passa, as pessoas passam e ninguém vem ao meu encontro. De mão dadas, votamos, desabafo um pouco e trocamos uns beijos apenas. É muito? Ninguém se importa, todo mundo é egoísta e muito sério. Vem, vamos ter um pouco de liberdade e mexer com nossa libido! Eu estou carente e só sei que devo votar... Enquanto isso as pessoas teimam em ser sérias, distribuindo santinhos pelas ruas, agitando bandeiras de seus candidatos; enquanto o divertimento chama, a verdade é que não são o que serão a daqui algumas horas: extravasarão. Apoiei-me no passado, tão perto e tão frágil, o que não deveria ter feito, não quis ter feito, mas enfrento a queda, só por causa de você. Ter esperanças do passado é a maior burrice que se faz, pelo menos o é nesse momento. Você me deixou e agora escorrego num domingo vazio direto à uma segunda-feira maçante. Só me resta votar e sentar no sofá para assistir, argh!, televisão...
                Tomara que a fila não esteja grande. Não quero ter a sensação de estar perdendo meu tempo mais do que agora. Tenho que pensar que estou aproveitando meu tempo ao máximo. Meu título de eleitor está aqui, mas meu papelzinho, minha cola... Bem, vejamos se não está nesse bolso. Nem nesse... Ah, cacete... E agora? Só essa que me faltava... Calma, não entremos em pânico que pelo menos o nome do candidato eu devo saber. Suponho que eu tenha deixado os papéis em cima do criado-mudo quando telefonava para Liz. Sempre você, hein Liz? Talvez até houvesse tempo de voltar para casa e pegar os papéis, mas sei lá... talvez não valha à pena o esforço. Lá na escola deve ter a relação dos candidatos com os nomes e os números... Espero... Deixe-me andar mais depressa para a agonia não bater.
                Vejamos... aqui está! Bem, o nome é parecido com o que eu havia visto no jornal. É, era sim. Não sei se era apelido ou coisa parecida, mas aqui está com o nome inteiro dele. Sim, é esse daqui sim! Agora para prefeito... Deve ser naquela outra folha... Aqui está! Ah, com três candidatos não é tão difícil de se escolher. Não era esse, nem esse, então só pode ser esse. O nome é bem parecido, acho que o partido é o mesmo e olhe aqui no chão... O santinho dele... As propostas parecem ser boas, portanto é o menos pior, mesmo. He, he, vamos acabar logo com essa palhaçada pois quem está com dor-de-cabeça sou eu! Seção 315, no final do corredor, sem fila, vazia, esperando por mim. Olá, tudo bem? Assina aqui? Opa, obrigado! Agora é ali? Tudo bem... Os papéis: não os perdi! Não é o telefone da Liz mas está confirmado na telinha. CONFIRMA - trimmmm!!! Pronto! Tchau, até mais! Ah, dever cumprido! Sensação boa, compensa o desafeto da Liz... Ao menos algo para animar a inexorável segunda...

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