"O verme perdoa o
arado que o corta." - William Blake - Provérbios do Inferno
Uma boa
noite de sono. Nada que revitalize mais. Gostaria de ter lembrado dos sonhos
que tive, mas nada é perfeito. E seria uma noite perfeita ao ter me lembrado do
que pensei durante essas 10 horas de sono. Não sei se poderia dizer que pensei
algo; nem que alguém tenha pensado comigo; nunca parei para pensar se penso
enquanto durmo, mas já penso, e é o suficiente. Ontem a noite foi boa, o sono
foi bom e, como disse, tudo isso me revitaliza. Não apenas a noite de sonho,
como também ter conversado com Liz. Pouco havia que se perder quando resolvi
sair, e então encontro Liz: um pouco receosa, eu também. Troca de olhares, me
aproximo, um pouco de conversa, até chegarmos a ser os humanos que somos, com
bebida também, claro! Às vezes é preciso estar entediado para se divertir
profundamente nesta vida... Então chateia-se, aborrece-se, desilude-se, com
tudo, com todos, com você... Por o quê? Pela vida não lhe dar opções...
Busca-se pessoas, divertimento, agitação, badalação, o feeling do envolvimento,
paixão, o nada-importa. Ganha-se o cansaço e a cama tediosa de sempre torna-se
um dos dois melhores lugares para se estar: nela ou envolto nos braços dela, da
garota de há pouco. Por enquanto nada me convence a levantar, tenho a sensação
de ter o tempo em minhas mãos. Tento lembrar-me dos sonhos que tive. Talvez
tenham sido com ela, um idealização romântica de nós dois, juntos e
impossíveis, se o que nos une só o é por uma noite apenas. A manhã, a tarde, o
dia, todo hoje, são meus, sou onipotente, carrego a felicidade temporal de um
domingo livre sem compromisso. Talvez tenha de me levantar para tomar o café e
deixo os pensamentos incompletos. Mas tenho poder sobre o tempo, pelo menos
hoje. Expurgo o tédio, direto à uma xícara de café...
Infelizmente
a noite passa e não sou mais o que eu era da última noite. Lavando o rosto,
livro-me completamente dos últimos resquícios de ontem. Não gosto de dizer que
vivo do passado. Acho muito cruel ter tal perspectiva, se é ao futuro que
vamos. Pelo menos é o que pretendo, sem saber muito ao certo como. Porém
momentos como esses são bons de serem lembrados, o que me dá uma grande dose de
energia para pensar no que hei de fazer hoje. O que sou agora é refletido no
espelho; nos pensamentos a nostalgia do passado. Hoje talvez eu deva viver
novamente o ontem, ou então recriá-lo. Mas o que é rotina senão isso? Então a
encontrarei, para alguns poucos beijos, algo que suponho valer à pena. Ela vale
sim, não que eu pense em algo mais duradouro. Os lábios valem, com certeza... O
aparelho de barba, ããhh, onde está? E ela, onde está? Nem ao menos sei onde
você pode estar, querida... Ah, cacete, como não me lembrei disso antes? He,
he, vi... hoje é dia de eleição, seu... seu... alienado! Vai, barbeia-te logo!
Só eu
mesmo para esquecer que hoje é dia de votação. E agora, o que faço, hein? Bem,
posso votar até às 5. Agora são quase 10 horas. Deixe-me ver... O leite está
ali, mas o café não está pronto... Então talvez eu deva almoçar, descanso um
pouco, voto e me encontro com a Liz. É, mas antes de almoçar eu dou uma ligada
prá ela. Pelo menos o número do telefone dela eu tenho; acho que tenho, se não
o perdi. Café fraco, não fazem mais como antigamente, nem têm cafezais como os
de antigamente. E por pensar em se perder, talvez eu esteja perdendo algo
importante. Pois é, como se vota sem o número do candidato? Suponho que eu os tenha
separado, e ontem mesmo eu recordo de tê-los anotados em um papel. Foi uma
escolha difícil com toda certeza. Dá um pouco de medo pensar que se vai votar
em uma urna eletrônica, pela primeira vez, que se pode errar, coisa e tal. Mas
prá prefeito e vereador não tem tanta importância, porém se fosse para
presidente o peso era maior. Daí que eu me desanimei um pouco para escolher não
o melhor, mas o menos corrupto dentre todos esses candidatos sujos que aparecem
por aí. Acreditar no que quando se vê só roubalheira? Acabo o café e o pão
estava um pouco duro, porém me alegro ao lembrar onde havia guardado os números
dos candidatos. Agora é só achar o número da Liz.
Liguei
para a Liz e é difícil acreditar que ela tenha me dito que não está afim de
sair hoje. Dor-de-cabeça, mas todo mundo tem dor-de-cabeça. Que nada, o que
será? Ela custou a me reconhecer no telefone, e se não fosse eu insistir no meu
nome e sobre ontem à noite ela não teria me falado sobre sua dor-de-cabeça.
Talvez não tenha dormido bem essa noite, ou nem tenha dormido e por isso não me
reconheceu. Talvez as bebidas. Umas faca de dois gumes: não se lembra de mim
por que bebeu ou ficou comigo por que bebeu. Quem sou eu para me iludir? Um
babaca, com certeza. Esqueça-a e é o melhor que há de ser feito. Assim não se
sente usado nem nada. Mas a verdade seja dita: eu fui usado. Isso é o que se
consegue quando se diz que não há amor verdadeiro, e que se acredita apenas em
liberdade, amizade e respeito em um relacionamento. O que se perde são as
perspectivas de um domingo à tarde, mas tudo bem...
Agora
só me resta votar, andar um pouco por aí, esperar o tempo passar e senti-lo
escapar do controle. Não se é mais onipotente. E o domingo passa, as pessoas
passam e ninguém vem ao meu encontro. De mão dadas, votamos, desabafo um pouco
e trocamos uns beijos apenas. É muito? Ninguém se importa, todo mundo é egoísta
e muito sério. Vem, vamos ter um pouco de liberdade e mexer com nossa libido!
Eu estou carente e só sei que devo votar... Enquanto isso as pessoas teimam em
ser sérias, distribuindo santinhos pelas ruas, agitando bandeiras de seus
candidatos; enquanto o divertimento chama, a verdade é que não são o que serão
a daqui algumas horas: extravasarão. Apoiei-me no passado, tão perto e tão
frágil, o que não deveria ter feito, não quis ter feito, mas enfrento a queda,
só por causa de você. Ter esperanças do passado é a maior burrice que se faz,
pelo menos o é nesse momento. Você me deixou e agora escorrego num domingo
vazio direto à uma segunda-feira maçante. Só me resta votar e sentar no sofá
para assistir, argh!, televisão...
Tomara
que a fila não esteja grande. Não quero ter a sensação de estar perdendo meu tempo
mais do que agora. Tenho que pensar que estou aproveitando meu tempo ao máximo.
Meu título de eleitor está aqui, mas meu papelzinho, minha cola... Bem, vejamos
se não está nesse bolso. Nem nesse... Ah, cacete... E agora? Só essa que me
faltava... Calma, não entremos em pânico que pelo menos o nome do candidato eu
devo saber. Suponho que eu tenha deixado os papéis em cima do criado-mudo
quando telefonava para Liz. Sempre você, hein Liz? Talvez até houvesse tempo de
voltar para casa e pegar os papéis, mas sei lá... talvez não valha à pena o
esforço. Lá na escola deve ter a relação dos candidatos com os nomes e os
números... Espero... Deixe-me andar mais depressa para a agonia não bater.
Vejamos...
aqui está! Bem, o nome é parecido com o que eu havia visto no jornal. É, era
sim. Não sei se era apelido ou coisa parecida, mas aqui está com o nome inteiro
dele. Sim, é esse daqui sim! Agora para prefeito... Deve ser naquela outra
folha... Aqui está! Ah, com três candidatos não é tão difícil de se escolher. Não
era esse, nem esse, então só pode ser esse. O nome é bem parecido, acho que o
partido é o mesmo e olhe aqui no chão... O santinho dele... As propostas
parecem ser boas, portanto é o menos pior, mesmo. He, he, vamos acabar logo com
essa palhaçada pois quem está com dor-de-cabeça sou eu! Seção 315, no final do
corredor, sem fila, vazia, esperando por mim. Olá, tudo bem? Assina aqui? Opa,
obrigado! Agora é ali? Tudo bem... Os papéis: não os perdi! Não é o telefone da
Liz mas está confirmado na telinha. CONFIRMA - trimmmm!!! Pronto! Tchau, até
mais! Ah, dever cumprido! Sensação boa, compensa o desafeto da Liz... Ao menos
algo para animar a inexorável segunda...
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