Deveria estar ali verificando o
funcionamento das máquinas. Porém se sentia melhor apenas olhando para o que
dizia aquela pequena plaquinha de certificado de garantia. Uma chapinha cinza
clara, de alumínio, provavelmente, com algumas inscrições em cor preta e outras
gravadas no material. Estavam pregadas com rebite naquela grande máquina verde.
A máquina em que ele deveria estar fuçando e procurando os prováveis defeitos
que seu chefe lhe havia dito que teria. Queria que ele se debruçasse todo por
entre as peças daquela coisa cheia de óleo e graxa, sem a mínima noção do que
estaria ocorrendo de errado. Era ele o único quem consertava os defeitos que
apareciam por toda a fábrica, mas era, com certeza, o que menos sabia sobre
como se concertar. Ia na sorte e na dedução quando ia analisando parte por
parte os problemas que iam lhe aparecendo, sempre demorando muito mais do que o
necessário. Com certeza seu chefe reclamaria do tempo desperdiçado, que era um
funcionário incompetente, que estava desperdiçando o dinheiro precioso da
empresa, e que tomasse cuidado com aquele cobiçado emprego em que se
encontrava. Mas por que não mandasse outro em seu lugar? Não haveria outros ali
cuja única função era consertar máquinas? Se sempre sabia que demorava tanto,
por que o mandava sempre? Havia uma certa cumplicidade não aparente entre ele e
o chefe, que os destinava cada um a dizer sempre a mesma coisa. O chefe
encarregava-o de cuidar da máquina, ele obedecia, porém ficava a enrolar
durante um bom tempo, sem noção do que fazer para solucionar o problema, mesmo
assim resolvia-o de algum jeito e no final recebia a igual bronca do chefe
sobre sua competência. Uma cumplicidade que o mantivera nesse emprego durante
10 anos. Uma cumplicidade que estrapolava o ambiente de trabalho e impregnava o
restante de sua vida. A cumplicidade com a rotina que estabilizou seu modo de
se relacionar com as pessoas e com as situações com que se deparava todos os
dias. Que não o fazia se cansar ou estressar-se com nada.
Aos dezoito anos entrara para
trabalhar naquela grande empresa de fabricação de alumínio. Uma empresa de
grande importância no ramo e que ainda é um grande pólo de geração de empregos
na região. Talvez fosse o único modo de sobrevivência de muitas pessoas que
moravam nas cidades que rodeavam a empresa. Esta numa cidade pequena do
interior, servindo outras cidades um pouco maiores ao seu redor. Salvando, como
dito, vidas da possível miséria assim como cidades da dependência de setores
menos produtivos para seus desenvolvimentos. Porém, somente uma questão de
ponto de vista, sobre quem dependia de quem. Para ele os empregados e as
cidades dependentes dessa grande empresa. O fato importante é que com dezoito
anos resolveu arranjar um emprego em tal. Estava decidido que necessitava de um
trabalho fixo que lhe desse uma estabilidade na vida, pelo menos emocionalmente
ou em termos de vivência, já que o que ganhava não era algo que lhe podia
sustentar plenamente. Na verdade seu pai arranjou-lhe a vaga, bastando
praticamente que a aceitasse, sem necessidades de entrevistas ou persuasão.
Como o pai havia trabalhado há tempos na empresa e como mantinha
relacionamentos com um pessoal de lá, foi fácil colocá-lo lá dentro. Algo
típico para a região, pois era como se fosse um ritual de passagem de um jovem
para a vida adulta empregar-se em qualquer função naquela empresa. E também
típico tornar-se mais importante para os demais ao escalar as várias
hierarquias, pelo menos ao começo de carreira.
Pois então começou a rotina de
acordar cedo, bater o cartão, receber as ordens do chefe, dar uma pausa para o
almoço, voltar ao trabalho e só sair no final da tarde. No início algo até que
bem interessante. Novos compromissos, novos conhecimentos, novas pessoas.
Aguçava-o o espírito estar entrando naquele mundo de vários homens (já que não
havia mulheres em toda fábrica, com raras exceções das secretárias) que estavam
construindo suas vidas ao mesmo tempo. Trabalhadores que se sustentavam e que
se sustentaram há vários anos e sustentando também a economia da região.
Esforços feitos em um único sentido: obter riquezas. E ele estava ali naquele
meio. É claro que sua vida não só estava centrada no emprego, mas ao final do
expediente, à noite, dedicava-se ao estudo na faculdade. Era preciso estar
preparado para ascender profissionalmente e não só pensar no hoje, como diriam
seus pais. Estes deixavam claro que ele estava livre para escolher o caminho
que quisesse seguir na vida, tanto nos estudos como no trabalho. Porém para ele
ficava claro que seu destino começava a se traçar no sentido de dedicar-se
àquela faculdade e à ascenção na hierarquia da empresa. Não achava nada mal aos
dezoito anos e, começando a se integrar ao ambiente do trabalho, decidiu
dedicar-se à ser um bom funcionário, no sentido de obter o prazer que aquilo
tudo poderia lhe proporcionar. Gradativamente foi entendendo como tudo
funcionava e a sentir-se mais confortável no que fazia.
Passado dez anos, o que restou
daquilo tudo? O que tornou-se aquele passado que não parece estar distante? Mas
que parecia estar rompido com o que era agora, como algo pertencente à outra
pessoa, quem sabe. Talvez por ter brigado com o chefe e não ter percebido;
talvez por ter se questionado sobre a eficácia de seu serviço; talvez por ter
pensado em sua vida. Talvez por algo inexplicável, que a rotina não poderia lhe
dar respostas: um Deus? Ou então um distúrbio em sua saúde, já que não
consultava-se em um médico há muito tempo. Ou uma penalização por não ter feito
seu trabalho corretamente. Mas uma penalização por aquela falta de interesse
momentânea ou aquela que se repetiu durante um bom tempo em sua rotina? Não,
sua pena não deveria ser muito grande, achava. Seria muito injusto com o bom
funcionário que era. E brigara com o chefe, não brigara? Ah, que agonia:
brigara! Impossível! Brigara com o chefe e não perecebera! O que havia dito?
Custava a lembrar-se. Já tinha a sensação de que discutira e o nervosismo viera
à flor da pele. Um nervosismo por saber que o chefe era cumplice seu. Um
nervosismo por saber que aquilo tudo estava errado. E que sempre estivera
fazendo esse algo errado. E seu chefe era seu cumplice e que nunca diziam-se
uma palavra sobre o assunto, que tanto lhes era latente. Um desespero por
pensar que aquilo transcendia a esfera daquela relação pessoal. Poderia estar
impregnando a empresa toda, não poderia? Todos teriam essa cumplicidade um com
o outro sobre os erros de cada um? Mas ele não poderia, e estava. Sua rotina,
constatara, não era nada mais do que um esquivar-se do fazer certo as coisas. A
agonia vinha do saber que não era aquele que pretendia ser no começo de
carreira e, pior ainda, que ninguém era integro também. Aflorou a agonia e
desmaiou.
Sonhou com o que fora até os dezoito
anos. Um insight profundo em algo que fora enterrado há tempos. Pensou naquela
vida anterior à sua admissão no emprego atual, que com certeza para ele já
havia desmoronado. Talvez então uma passagem para espiar um pouco mais
profundamente seu passado. Lembrou de seu pai conversando sobre arranjar um
emprego. Algo fixo para sair daquela vida. Que vida? Chegar em casa às 5 da
manhã, trancar-se no quarto, questionar o que as pessoas faziam. Assim tão
abruptamente? Não, acontecia naturalmente. Analizava muito a vida e negava tudo
também. Não confiava em nada ou ninguém, mesmo pensando em acreditar em causas
justas. Causas que poderiam ser negadas à qualquer momento, em detrimento à um
bem maior, que também poderia ser desconstruído à qualquer tempo. E não tinha
amigos. Por quê? Esperava pelo amigo perfeito, que um dia encontraria e
perceberia que tinham a mesma linha de pensamento. Mas qual linha? A de tudo
ser certo e se buscar o perfeito na vida. Um culto à inteligência e à sabedoria
humana, numa oscilação entre o bom e o ótimo. Porém seu amigo nunca chegava e
uma solidão começou a bater-lhe. Uma falta de sentido em seus atos, por não ter
com quem compartilhar seu conhecimento. Não adquirira hábitos como muitos de
seus conhecidos, nem era especialista em algo que outras pessoas também eram.
Acabou ficando somente no plano de suas idéias, pois para concretizá-las
descobriu que precisava de alguém para compartilhá-las. Então quis ser como as
outras pessoas e pensou que estas eram banais: tornou-se banal também. Apenas
conseguia ser banal no meio dos poucos com quem conseguia se relacionar. Só
conseguia falar besteiras e nada mais além disso. Se tocassem em algo que
considerasse um pouco mais inteligente, julgava que as outras pessoas não
entenderiam o que falava e, que quando falava, não lhe era dado atenção.
Sentia-se desprezado e incompreendido. Ao final de tudo não mais confeccionava
seus pensamentos que achava brilhantes nem se relacionava com as pessoas. Então
com 17 anos e desligado do mundo e de sua família. Aos 18 anos seu pai chegou
e, vendo a situação em que se encontrava, resolveu inserí-lo no meio social.
Empregou-lhe na empresa mais tradicional da região e deu-lhe um
"Start" na vida. Só funcionava com o incentivo de alguma força
exterior à sua. Alguém acordou-o do desmaio.
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