Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

domingo, 4 de agosto de 2013

Deveria estar ali verificando o funcionamento das máquinas [24/11/2002]

            Deveria estar ali verificando o funcionamento das máquinas. Porém se sentia melhor apenas olhando para o que dizia aquela pequena plaquinha de certificado de garantia. Uma chapinha cinza clara, de alumínio, provavelmente, com algumas inscrições em cor preta e outras gravadas no material. Estavam pregadas com rebite naquela grande máquina verde. A máquina em que ele deveria estar fuçando e procurando os prováveis defeitos que seu chefe lhe havia dito que teria. Queria que ele se debruçasse todo por entre as peças daquela coisa cheia de óleo e graxa, sem a mínima noção do que estaria ocorrendo de errado. Era ele o único quem consertava os defeitos que apareciam por toda a fábrica, mas era, com certeza, o que menos sabia sobre como se concertar. Ia na sorte e na dedução quando ia analisando parte por parte os problemas que iam lhe aparecendo, sempre demorando muito mais do que o necessário. Com certeza seu chefe reclamaria do tempo desperdiçado, que era um funcionário incompetente, que estava desperdiçando o dinheiro precioso da empresa, e que tomasse cuidado com aquele cobiçado emprego em que se encontrava. Mas por que não mandasse outro em seu lugar? Não haveria outros ali cuja única função era consertar máquinas? Se sempre sabia que demorava tanto, por que o mandava sempre? Havia uma certa cumplicidade não aparente entre ele e o chefe, que os destinava cada um a dizer sempre a mesma coisa. O chefe encarregava-o de cuidar da máquina, ele obedecia, porém ficava a enrolar durante um bom tempo, sem noção do que fazer para solucionar o problema, mesmo assim resolvia-o de algum jeito e no final recebia a igual bronca do chefe sobre sua competência. Uma cumplicidade que o mantivera nesse emprego durante 10 anos. Uma cumplicidade que estrapolava o ambiente de trabalho e impregnava o restante de sua vida. A cumplicidade com a rotina que estabilizou seu modo de se relacionar com as pessoas e com as situações com que se deparava todos os dias. Que não o fazia se cansar ou estressar-se com nada.
            Aos dezoito anos entrara para trabalhar naquela grande empresa de fabricação de alumínio. Uma empresa de grande importância no ramo e que ainda é um grande pólo de geração de empregos na região. Talvez fosse o único modo de sobrevivência de muitas pessoas que moravam nas cidades que rodeavam a empresa. Esta numa cidade pequena do interior, servindo outras cidades um pouco maiores ao seu redor. Salvando, como dito, vidas da possível miséria assim como cidades da dependência de setores menos produtivos para seus desenvolvimentos. Porém, somente uma questão de ponto de vista, sobre quem dependia de quem. Para ele os empregados e as cidades dependentes dessa grande empresa. O fato importante é que com dezoito anos resolveu arranjar um emprego em tal. Estava decidido que necessitava de um trabalho fixo que lhe desse uma estabilidade na vida, pelo menos emocionalmente ou em termos de vivência, já que o que ganhava não era algo que lhe podia sustentar plenamente. Na verdade seu pai arranjou-lhe a vaga, bastando praticamente que a aceitasse, sem necessidades de entrevistas ou persuasão. Como o pai havia trabalhado há tempos na empresa e como mantinha relacionamentos com um pessoal de lá, foi fácil colocá-lo lá dentro. Algo típico para a região, pois era como se fosse um ritual de passagem de um jovem para a vida adulta empregar-se em qualquer função naquela empresa. E também típico tornar-se mais importante para os demais ao escalar as várias hierarquias, pelo menos ao começo de carreira.
            Pois então começou a rotina de acordar cedo, bater o cartão, receber as ordens do chefe, dar uma pausa para o almoço, voltar ao trabalho e só sair no final da tarde. No início algo até que bem interessante. Novos compromissos, novos conhecimentos, novas pessoas. Aguçava-o o espírito estar entrando naquele mundo de vários homens (já que não havia mulheres em toda fábrica, com raras exceções das secretárias) que estavam construindo suas vidas ao mesmo tempo. Trabalhadores que se sustentavam e que se sustentaram há vários anos e sustentando também a economia da região. Esforços feitos em um único sentido: obter riquezas. E ele estava ali naquele meio. É claro que sua vida não só estava centrada no emprego, mas ao final do expediente, à noite, dedicava-se ao estudo na faculdade. Era preciso estar preparado para ascender profissionalmente e não só pensar no hoje, como diriam seus pais. Estes deixavam claro que ele estava livre para escolher o caminho que quisesse seguir na vida, tanto nos estudos como no trabalho. Porém para ele ficava claro que seu destino começava a se traçar no sentido de dedicar-se àquela faculdade e à ascenção na hierarquia da empresa. Não achava nada mal aos dezoito anos e, começando a se integrar ao ambiente do trabalho, decidiu dedicar-se à ser um bom funcionário, no sentido de obter o prazer que aquilo tudo poderia lhe proporcionar. Gradativamente foi entendendo como tudo funcionava e a sentir-se mais confortável no que fazia.
            Passado dez anos, o que restou daquilo tudo? O que tornou-se aquele passado que não parece estar distante? Mas que parecia estar rompido com o que era agora, como algo pertencente à outra pessoa, quem sabe. Talvez por ter brigado com o chefe e não ter percebido; talvez por ter se questionado sobre a eficácia de seu serviço; talvez por ter pensado em sua vida. Talvez por algo inexplicável, que a rotina não poderia lhe dar respostas: um Deus? Ou então um distúrbio em sua saúde, já que não consultava-se em um médico há muito tempo. Ou uma penalização por não ter feito seu trabalho corretamente. Mas uma penalização por aquela falta de interesse momentânea ou aquela que se repetiu durante um bom tempo em sua rotina? Não, sua pena não deveria ser muito grande, achava. Seria muito injusto com o bom funcionário que era. E brigara com o chefe, não brigara? Ah, que agonia: brigara! Impossível! Brigara com o chefe e não perecebera! O que havia dito? Custava a lembrar-se. Já tinha a sensação de que discutira e o nervosismo viera à flor da pele. Um nervosismo por saber que o chefe era cumplice seu. Um nervosismo por saber que aquilo tudo estava errado. E que sempre estivera fazendo esse algo errado. E seu chefe era seu cumplice e que nunca diziam-se uma palavra sobre o assunto, que tanto lhes era latente. Um desespero por pensar que aquilo transcendia a esfera daquela relação pessoal. Poderia estar impregnando a empresa toda, não poderia? Todos teriam essa cumplicidade um com o outro sobre os erros de cada um? Mas ele não poderia, e estava. Sua rotina, constatara, não era nada mais do que um esquivar-se do fazer certo as coisas. A agonia vinha do saber que não era aquele que pretendia ser no começo de carreira e, pior ainda, que ninguém era integro também. Aflorou a agonia e desmaiou.
            Sonhou com o que fora até os dezoito anos. Um insight profundo em algo que fora enterrado há tempos. Pensou naquela vida anterior à sua admissão no emprego atual, que com certeza para ele já havia desmoronado. Talvez então uma passagem para espiar um pouco mais profundamente seu passado. Lembrou de seu pai conversando sobre arranjar um emprego. Algo fixo para sair daquela vida. Que vida? Chegar em casa às 5 da manhã, trancar-se no quarto, questionar o que as pessoas faziam. Assim tão abruptamente? Não, acontecia naturalmente. Analizava muito a vida e negava tudo também. Não confiava em nada ou ninguém, mesmo pensando em acreditar em causas justas. Causas que poderiam ser negadas à qualquer momento, em detrimento à um bem maior, que também poderia ser desconstruído à qualquer tempo. E não tinha amigos. Por quê? Esperava pelo amigo perfeito, que um dia encontraria e perceberia que tinham a mesma linha de pensamento. Mas qual linha? A de tudo ser certo e se buscar o perfeito na vida. Um culto à inteligência e à sabedoria humana, numa oscilação entre o bom e o ótimo. Porém seu amigo nunca chegava e uma solidão começou a bater-lhe. Uma falta de sentido em seus atos, por não ter com quem compartilhar seu conhecimento. Não adquirira hábitos como muitos de seus conhecidos, nem era especialista em algo que outras pessoas também eram. Acabou ficando somente no plano de suas idéias, pois para concretizá-las descobriu que precisava de alguém para compartilhá-las. Então quis ser como as outras pessoas e pensou que estas eram banais: tornou-se banal também. Apenas conseguia ser banal no meio dos poucos com quem conseguia se relacionar. Só conseguia falar besteiras e nada mais além disso. Se tocassem em algo que considerasse um pouco mais inteligente, julgava que as outras pessoas não entenderiam o que falava e, que quando falava, não lhe era dado atenção. Sentia-se desprezado e incompreendido. Ao final de tudo não mais confeccionava seus pensamentos que achava brilhantes nem se relacionava com as pessoas. Então com 17 anos e desligado do mundo e de sua família. Aos 18 anos seu pai chegou e, vendo a situação em que se encontrava, resolveu inserí-lo no meio social. Empregou-lhe na empresa mais tradicional da região e deu-lhe um "Start" na vida. Só funcionava com o incentivo de alguma força exterior à sua. Alguém acordou-o do desmaio.

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