Editorial

"Ufa!!! Até que enfim eu estou livre prá me dedicar a essa dependência que a cada dia confesso estar mais viciado: escrever. RUMO AO ORGASMO EXISTÊNCIAL!!! Escrever é muito bom, e antes de começar é gostoso dar uma olhada em uns textos, inspirar-se, depois colocar umas músicas também inspiradoras prá tocar (ultimamente recomendo Radiohead) e deixar rolar a imaginação." [trecho de Preso em si mesmo, 25/07/2000]

* todos os textos são de autoria de Flávio Henrique Ghilardi.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Inesperado [01/08/2000]


      Eu não esperava por uma batida na porta. Alguém bateu. Suavemente, dando um efeito prolongado ao barulho do contato entre a mão e a porta. Eu não queria levantar. Levanto-me. Cambaleio, a brusca mudança de posição e o ambiente escuro me fazem quase bater nos poucos móveis de minha sala. Tento ir em direção ao som que escutei e seguro firmemente em uma maçaneta que me aparecera. Giro-a bruscamente e quase caio de frente a um vulto que me intimida com sua presença. A luz do dia ensolarado lá de fora, contrastando com a densa escuridão de meu apartamento, faz com que eu só perceba as voltas de quem batera a porta, irritando-me a visão e fazendo-me só poder escutar:
      - Olá, posso entrar? - diz timidamente uma voz de mulher que não me é estranha. Ela invade meu apartamento, não se importando com a minha presença.
      - Hei, quem é você? - tento ser o mais rude que posso naquele momento, mas falho com a confusão que toma conta de mim. Sôo como uma criança.
      - Sou eu... apenas eu... - ela senta-se desleixadamente em meu pequeno sofá e me faz ter um frio na espinha com o tom de voz que eu acabara de ouvir.
      "Como ela pôde? Nunca faria isso se fosse realmente ela!" - minha primeira reação foi negar as hipóteses que formulava sobre o que estava acontecendo naqueles momentos. "Ok, eu jurei não acreditar no escrúpulo humano. Mas justamente ela, agora, traindo minhas esperanças duas vezes?" - Não havia como escapar; era ela e não podia ser mais ninguém. O passado me fitava novamente sem eu lhe haver pedido, trazendo a decepção que eu tanto pensara ter resolvido.
      - Sim, é você. Novamente?
      - Talvez. O nada tem de ser construído, não?
      - E é com o nada que nos deparamos agora, esperando ser resolvido. Mas acho que é o passado que devemos resolver...
      - O passado já era, como o próprio sentido de passado pode significar.
      - Pode ser que eu use a palavra errada, mas acho que não é passado, e sim egoísmo. Sabe, é difícil ter de encarar o nada com um grande peso nas costas. Também é difícil superar certas barreiras e tê-las de encarar novamente.
      - Tudo bem, eu não consigo ser tão subjetiva quanto você, prefiro ir direto aos fatos. Como você eu superei o que aconteceu entre nós dois, e não é sobre isso que vim até aqui. Eu vim falar sobre mim... - ela parara repentinamente o momento de exaltação e sua fisionomia demonstrava ao mesmo tempo decepção e angústia pelo o que dissera - Tem algo forte para a gente beber? Conhaque ou algo parecido? - a cabeça apoiou-se nos braços sobre o joelho; ela solta uma baforada em sinal de desespero.
      - Tenho conhaque, sim. Mas, olhe... Não, esquece. Vou pegar os copos na cozinha... - Não quis continuar a dialogar para não começar a discutir, como sempre detestei em meu relacionamento com ela.
      Na cozinha caminhei vagarosamente para tentar esfriar a cabeça e me preparar para o que haveria de acontecer naquele encontro inesperado. Ela fora a última pessoa com quem consegui me relacionar, seriamente, em 6 meses, desde que nos separamos. Talvez eu tenha ficado traumatizado com a experiência que tivemos juntos, de excentricidade e muita ambiguidade, e tê-la culpado por não mais conseguir estabilizar minha situação amorosa com alguém que gostasse. E é por causa dela, também, que me irrito à toa se alguém fica a mexer em meus CD's, como ela o faz agora, provavelmente debruçada em cima deles e condenando-me pelo meu horrível gosto. Não tolero tal intrometimento e pego logo de vez os copos e me dirijo até a sala para censurar-lhe duramente e expulsar logo da minha vida essa massa de problemas.

EAC [06/02/2001]

Minha verdadeira qualidade daquilo que sou que me orgulho de ser: existir como alguém indefinidamente pensando que existo como aquilo que sou. O asfalto derrete por onde piso grudando em meu sapato que na verdade é um tênis porém eu nem me importo com o fato - o de ser meu sapato tênis ou do asfalto grudar no meus sapato (ou tênis) - e assim sendo meu tênis sapato o asfalto gruda em tal pela minha calorosa existência. Chego a não agüentar a mim mesmo pelo estado alterado dessa pobre podre nova de uma ova consciência que me faz pensar que derreto o asfalto por onde ando saindo até aquele calorzinho que sai das coisas no verão pelo forte calor em mim mesmo daí eu pensar que eu exalo ondas quentes do meu corpo e eu sou fodão. Ninguém é mais foda como eu. Eu sou tão foda que fodo o asfalto da minha cidade. Também sou foda por conseguir caminhar normalmente com o asfalto grudando em meu sapato e mesmo grudando eu ando e olha! posso até correr! normalmente mesmo pensando que meu sapato é tênis e como também já dito que o asfalto está grudando no meu calçado. Subo na calça e porra: não tá grudando! gruda porra! gruda! eu sou foda fodão esquentadão que exala calor abundantemente pelas tempôras! sua calçada filha-da-puta! O que houve cacete? O estado alterado de minha consciência traiu a si mesmo com essa autosuperestimação de si mesma seu corpo englobado junto a ela em um mesmo ser que sou eu por isso não havendo de serem separados e arcarem ambos com os prazeres e problemas advindos da existência então o porque do sofrimento humano desse que sou de não conseguir derreter o concreto por que o concreto é fodão: Oh, não, o concreto é mais fodão do que eu! Porra, porra e porra! Estratificou-se a condição de ascenção social de um moribundo de classe média estagnado no estrato social inerte por si só... Só depende de nós! Quem é mais foda do que essa calçada? Nada! Nada vai salvar o mundo e nossa condição! Nem o próprio homem que a priori poderia salvar a si mesmo porém após um estudo aprofundado e individual do absurdo da condição humana torna-se um niilista inevitavelmente! Então mata-se por se ser absurdo porra de eu mesmo? Não: ao bar mais próximo!

Chuva [20/06/2000]

CHUVA

      Hoje a chuva voltou. Nossa aldeia estava sendo obrigada a sacrificar alguns de seus membros. O rio secara; não era a morte que vinha nos cercar: os homens "santos" é que a afastavam de seu domínio; não querer a morte é algo que te faz querê-la; os homens "santos" estavam se aniquilando... E minha aldeia morria pela falta de morte (ninguém lá fora entende, não adianta) o quanto eu sucumbia pela falta da vida, DELA, que me acabava por se desfazer. Não era triste ou horroroso - era artificial - e falta de vida nos fazia falecer, aos poucos, como um punhal que não se pode retirar das costas enquanto não se cumpre o castigo. Nosso castigo era ser natural! O artificial - tu tiraste-me o que não tens e que não queres ter - o AMOR. Agora tenho que me deparar com a divisão de meu mundo: ARTIFICIAL x NATURAL - BEM x MAL; antes tudo uno e contíguo, separou-se em dois lados: EU e VOCÊ. Eu na vida. Você na morte. Carrego ainda a inocência por que ainda sou sincero; sincero eram meus planos: apenas AMOR, AMOR, AMOR!!! O quanto tolo fui comigo mesmo... Somente você sabia o quão irrisória era essa vida e assim resolveu romper o mundo em dois... Não, eu ainda tenho que acreditar em meus ideais! Ideais de quê? Qual certeza tenho eu, agora, em meio ao caos, em meio a... CHUVA! Hoje a chuva voltou, esqueci-me... A chuva parece bela se vista de perto; horror é ter de avistar a chuva que vem, ao longe, tempestuosa e sem piedade; porém, quando ela chegou a nossa aldeia tudo era alívio, contentamento, suavidade reprimida e espontaneidade sufocada. Senti-me orgulhoso de reencontrar-me na aldeia que era meu mundo: por um momento esqueci-me de você, do outro lado. Era tudo o que realmente éramos voltando ao seu lugar, eu com meus ideais de vida, ao lado de todos reanimando sua verdadeira existência pessoal... NÃO... Foi o que eu mais esperava e que não gostaria que acontecesse: eu descobrira-me artificial. Abandonar minha consciência, era isso o que eu iria fazer! Esqueço-me e terei a vida que querem que eu tenha: insensata, fria, entorpecida, desvirtuada, alienada, inescrupulosa, enfim, sem VOCÊ (o quê? como pude eu dizer-me isso: sem VOCÊ? talvez tornarei a perder-me eternamente sem... você... não, devo esquecer-me do que penso ser!).
      Nesse momento sou dois, a ambigüidade em pessoa: tentarei ser aquilo que realmente gostaria que eu fosse ou entregarei-me as reminiscência de estar ao teu lado? Sou alguém que viu-se atormentado pelas dúvidas, por não saber encará-las, (vítima ou culpado) por ter a convicção de que sabia viver, sem anular o espaço de ninguém. Apenas fui eu mesmo todo esse tempo em que estive ao teu lado; agora formulo questões para livrar-me do peso que a vida tornara-se; sinto-me culpado por descobrir que não fiz nada para viver realmente a vida. Tudo é confuso. A angústia caiu-me em mãos e eu não sei o que fazer dela (se ela quer que a faça algo)... Sim... Vejo voltar-me a consciência à tona: escolherei um dos lados. Não há mais tempo para a coerência. Não há mais tempo para o AMOR. Sei que ele me espera como sei que ele estava com a razão: romperei rumo outro lado! VOCÊ não estará me esperando; nem eu a procurarei; o AMOR somente existe quando SOMOS. Depois de concretizada minha decisão seremos somente a fuga: o NADA. Por que amar é negar a PRIVAÇÃO. Privam-me do amor e tenho que partir. Não estou lúcido e o caos me priva da VIDA. Agora dou-lhe o fim, à VIDA, em busca do amor platônico que sempre foi a razão de meu existir... Hoje a chuva voltou, trazendo as lágrimas que sempre retornam a minha aldeia...